De origem grega, a palavra 'bio' traz em si a vida que não tem como ser restrita nem isolada. Manifestada de diferentes maneiras, também é sinal de que pode correr perigo e merece ser discutida em sala de aula. Considerado um dos problemas mais graves da sociedade moderna, a discussão da violência urbana faz parte de um projeto que envolve pesquisadores da área de bioética da Universidade Estadual de Londrina (UEL), desde o ano passado, com alunos do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas da cidade.
Só em Londrina, dos 78 homicídios cometidos este ano até ontem (segunda-feira), a maioria das vítimas não chega a ter 30 anos. Continuando uma tendência, que vem desde 2001, quando, pela primeira vez, o perfil das mortes em Londrina passou a ter como topo de ranking os homicídios à frente dos acidentes de trânsito, segundo dados da Gerência de Informações em Saúde (GIS).
Chamada de bioética que faz a ponte entre a ciência e ética , o grupo de pesquisadores realiza o que chamam de ''Bioética de Intervenção'' termo cunhado pelo bioeticista Volney Garrafa, da Universidade Federal de Brasília.
Com apoio e reconhecimento da Unesco e da Sociedade Brasileira de Bioética, além do Núcleo de Bioética de Londrina, o trabalho é sistematizado em seis encontros temáticos: bioética e violência do cotidiano; bioética e DST/Aids; bioética e transplante de órgãos; bioética e genética humana (doenças congênitas); bioética e meio ambiente e bioética e transgênicos.
Além de palestras com especialistas de cada área (que participam de forma voluntária), os encontros são permeados de reflexões coletivas para os problemas que envolvem o cotidiano dos alunos de Londrina, exibição de vídeos e dinâmicas, feitas durante duas horas, uma vez por semana. ''O trabalho é bem prático e partimos de histórias que os alunos nos trazem. Buscamos não teorizar. O aluno tem pressa em saber se aquele conhecimento vai servir para a realidade dele. O negócio é saber 'qual é a real?''', explicou a organizadora do projeto, Luciana Grange, usando uma gíria bastante comum entre o público almejado. Com bolsa de pós-doutora em bioética pelo CNPq , Luciana também é pesquisadora do Iapar, na área de transgenia. A coordenação geral do projeto é de responsabilidade da doutora em bioética Olívia Márcia Nagy Arantes, da UEL. No final de cada encontro temático, um texto coletivo é produzido pelos alunos; textos que futuramente farão parte de artigos de revistas de circulação internacional (leia texto nesta página).
Entre as escolas participantes, está o Colégio Estadual Moraes de Barros (Região Oeste), em que cerca de 60 alunos reaprenderam o hábito de discutir assuntos polêmicos e parar para refletir em busca de soluções que possam ser aplicadas na vida prática. ''O projeto foi uma ótima oportunidade para termos espaço e mais tempo para aprofundar assuntos que fogem do conteúdo curricular. Fiquei surpreendida com a mudança de postura dos alunos. Falar de ética exige mais tempo'', comentou a professora de biologia Rosângela Domingues Generoso Pontes.
Um dos participantes, Diego Borges Batista, 17 anos, relembrou que na discussão sobre violência do cotidiano, no seu grupo, um dos enfoques mais acirrados foi sobre a violência contra a mulher. ''Elas estão até conquistando mais espaço no mercado de trabalho, mas ganham menos e raramente conseguem assumir cargos altos'', disse o aluno, cuja mãe recentemente começou a trabalhar como diarista, segundo ele, ''para ter mais liberdade e o próprio dinheiro''.
A violência doméstica também foi apontada pelos alunos como um drama psicológico que vai sendo repassado por gerações e necessita da intervenção da escola e de projetos sociais para ter esse processo estancado. Questões ligadas às diferenças sócio-econômicas, tráfico de drogas e de armas também fizeram parte dos debates.
Outra questão também destacada pelos alunos foi sobre a homofobia, apontado ainda dentro da discussão sobre violência do cotidiano. A aluna Ludimila Cordeiro Viana, 17 anos, disse que por questões religiosas não aceitava com bons olhos a questão da homossexualidade, mas que depois de participar do grupo, passou a lidar melhor com esse assunto que ainda é tabu em nossa sociedade. ''Particularmente sou contra, mas não estou aqui para julgar e aprendi a respeitar mais as pessoas que têm essa opção sexual, inclusive aqui na escola. Antes de qualquer coisa, todos são seres humanos'', defendeu a adolescente.
Para o segundo semestre, o projeto será realizado no Colégio Estadual Maria José Balzanelo Aguilera (Região Sul). Mais informações sobre a iniciativa podem ser obtidas pelo e-mail [email protected].

mockup