Com o quadro no programa ‘‘Domingo da Gente em que busca moças para serem princesas por um dia, o pagodeiro Netinho de Paula se transformou na principal arma da Tv Record na guerra da audiência dominical
Nos últimos tempos, Netinho de Paula está sendo obrigado a se acostumar com a gritaria e a agitação que o acompanha a cada visita em que busca a princesa escolhida para o programa ‘‘Domingo da Gente’’. Após desembarcar de sua indefectível limusine preta, o apresentador da Record é logo reconhecido e tem de contar com sua equipe de segurança para acalmar os ânimos. Foi o que aconteceu quando ele foi encontrar a menina Angélica, de 16 anos, que mandou uma das 12 mil cartas que o programa recebe por dia. A jovem moradora de São Gonçalo, no Grande Rio, foi escolhida por Netinho para ter um dia inesquecível em seu quadro mais popular. Provavelmente, o dia mais abonado de sua vida. ‘‘Tenho de chegar de mansinho para a Princesa se surpreender’’, explica pouco antes de deixar a limusine.
O sucesso de Netinho na tevê pode ser medido de várias maneiras. Antes do ‘‘Domingo da Gente’’ estrear, todos os programas da emissora somavam 4 mil cartas por dia. Só o quadro da princesa – que se chamava ‘‘A Princesa e O Plebeu’’, mas perdeu o nome para Gugu Liberato – recebe o triplo. Mas o que mais chama a atenção é a comoção que Netinho causa. Enquanto conversava com a família da princesa carioca, dezenas de pessoas se aglomeravam na porta da casa para ver o cantor. Idosos, adolescentes, mães com bebês no colo e até mesmo deficientes físicos. Todos queriam, pelo menos, tocar em Netinho. ‘‘Sou do povo’’, emociona-se.
Recentemente sondado para voltar para a Globo, onde viu naufragar o programa ‘‘Samba, Pagode e Cia.’’, Netinho está provando que é bom de Ibope. Chegou ficar na frente de Globo e SBT há dois domingos e vem mantendo uma excelente média de 15 pontos de audiência – antes a Record não passava dos 4 pontos no horário. Resultado: renovou contrato com a Record até 2004 e passou a receber R$ 200 mil mensais. O ‘‘Domingo da Gente’’, que começou com uma hora e dobrou o tempo de duração, está se tornando a arma da Record no confronto com Faustão e Gugu Liberato aos domingos. ‘‘A Globo é comandada por pessoas elitistas e sem identidade com o povo’’, critica o apresentador de 30 anos.
Após um ano, você imaginava que o quadro da Princesa se tornaria um dos líderes de audiência no domingo?
Juro que não. O importante é que estou atingindo o objetivo inicial: fazer um representante do pagode voltar à tevê. Tivemos a imagem desgastada com o ‘‘Samba, Pagode e Cia...’’ na Globo. Por isso, pensei em fazer ‘‘A Princesa...’’. Deu certo porque a tevê brasileira parou de ouvir o povo. Só mostra as coisas negativas. Tirar do ar, por exemplo, o ‘‘Brasil Legal’’, da Regina Casé, é trair o povo. É nesse tipo de programa que o povo mostra a identidade. Levar uma limusine até o gueto para mim também é maravilhoso, pois a maioria da população nunca teria acesso. A idéia é proporcionar às pessoas da minha origem um dia de rico.
Mas isso não é uma forma de iludir a pessoa?
Não ficamos só na fantasia. Seria vago fazer a pessoa mudar a vida dela num dia só. Por isso, decidimos intervir e arrumar um jeito da pessoa poder trabalhar.
Quanto custa uma Princesa?
Uns R$ 22 mil. Fora a ajuda dos empresários. Mas não sou a favor do paternalismo. Tento levar para um lado mais assistencial. Não é resolver os problemas e acabou. Seria cômodo dar uma geladeira e ir embora. Trabalhando, a pessoa vai resgatar a dignidade, comprar a própria geladeira e colocar comida dentro dela. Tentamos melhorar a condição de vida das pessoas.
Por que você acha que o quadro atrai tanta audiência?
É a identidade. Mesmo pessoas de classe média alta podem ter origem humilde e terem vivido o que a gente mostra. Quem fazia bem isso era a Janete Clair. Ela levava a vida comum à novela. Atualmente não se vê o pobre de uma maneira verdadeira na tevê e o quadro da princesa mostra isso. Já o ‘‘Domingo da Gente’’ tem um aspecto diferente na questão de conseguir uma boa audiência.
Qual?
Qualquer negro se daria bem se comandasse um programa com realização de sonhos, amparado por uma boa equipe e com o investimento da Record. Porque o Brasil quer se ver na tevê. E o Brasil não é dos louros. É o país da miscigenação. Por isso, não são só os negros que estão contentes porque estou na tevê e sim todas as raças. Não pelo Netinho, mas por um negro comandar um programa. Não tenho dúvida.
Como analisa o Gugu voltar a exibir um quadro igual ao seu?
É a prova que o formato do quadro é excelente. Mas saí meio chateado do SBT. O Walter Lacet, que coordenava o SBT, falou que eu não tinha muito jeito para televisão. Para permanecer no SBT pedi prioridade na grade em 2001 e um salário melhor. Aí o diretor do ‘‘Domingo Legal’’, o Roberto Manzoni, o Magrão, me ligou: ‘‘Preciso saber se você vai querer gravar ou não, porque tem outras pessoas querendo também’’. Falei: ‘‘Pô Magrão, não precisa falar assim comigo. Mas fica à vontade. Consegui provar a vocês que não preciso apelar para ter Ibope’’. Ele desligou pau da vida. Estava negociando com o SBT e acabei fechando com a Record.
Você ficou magoado por não poder mais usar o nome original do quadro, já que o SBT registrou antes de você?
Fiquei triste. Tenho uma música com este nome e foi a partir dela que surgiu o quadro. Mas o Magrão correu e registrou antes. Inclusive mandou uma carta para a Record dizendo que não podia mais utilizar o nome ‘‘A Princesa e O Plebeu’’. Nome da minha música. Todo o Brasil sabe. A gente recebe muitas cartas de pessoas até tristes com o Gugu por isso. Mas o Gugu nem sabe destas coisas.
Como é ser um dos únicos apresentadores negros de programa de auditório da tevê brasileira?
O Wilson Simonal foi o pioneiro. Nos anos 60 ele apresentou três programas, um na Tupi e dois na Record. Deve ter sido uma barra. Mas lá se vão 40 anos e agora o povo diz: ‘‘até que enfim um apresentador negro’’. Ouço isso nas ruas. Minha maior alegria não é porque os negros estão falando isso, mas os brancos também. Significa que querem os direitos iguais e não acontece porque os negros não têm representatividade. Mas esta lavagem de roupa está sendo feita pelo povo.
Você é a favor do projeto de lei que estabelece um mínimo de 25% de negros em elencos de produções televisivas?
Sou. Não dá para esperar por bom senso. Na tevê conta-se nos dedos os negros com destaque. Concessão de tevê não tem um e de rádio muito menos. Questionam se os negros têm competência. Mas lá se vão mais de 100 anos de abolição e se não inserirmos estas pessoas, os filhos delas também não terão oportunidade.
A tentativa da Globo contratar você novamente é uma prova de que a situação está mudando?
Acho que sim. Porque o argumento era que o negro não apoiava o negro. Falavam que negro não vende. E estamos conseguindo mudar isso. A Globo está perdendo o monopólio. Então começa a rever a produção de seus programas. Mas a Globo é comandada por pessoas elitistas e sem identidade com o povo.
Você sentiu isso na época do ‘‘Samba, Pagode e Cia.’’?
Claro. O popular para os diretores da Globo é a coisa mais brega do mundo. Em contrapartida, o SBT tem crescido pela proximidade e pela identificação do povo.
Foi esta visão elitista uma das causas para o ‘‘Samba, Pagode e Cia.’’ não dar certo?
Claro. Fazer pagode tomando champanhe não dá certo mesmo.
O salário de R$ 200 mil ainda não é pouco comparando com outros apresentadores do gênero?
Para mim é muito. Mas se formos comparar, até no salário o negro é discriminado. Vamos esperar, porque estou começando agora e tenho paciência. Tenho muito para mostrar e quem sabe atinjo os números de outros apresentadores. Sou café pequeno. Estou chegando agora e não quero ‘‘treta’’ com ninguém. Nem posso ficar pensando nestas coisas.

mockup