Ricardo Pereira é um cidadão do mundo. O lisboeta nunca se deixou levar pelas limitações geográficas e linguísticas. Por isso, aos 32 anos de idade, ele conta com uma carreira estabilizada em seu país de origem, além de trabalhos na França, Espanha, Estados Unidos e, sobretudo, Brasil.
''Comecei a trabalhar como modelo e isso me tornou meio nômade. Ter viajado e vivido em vários lugares me abriu os horizontes. Me trouxe uma ambição pelo surpreendente. Odeio ficar acomodado'', assume o intérprete do Vicente de ''Aquele Beijo''. Para Ricardo, protagonizar a atual novela das sete aconteceu pela sua relação com o Brasil. País que conheceu em 2004, quando encarou um dos papéis principais de ''Como Uma Onda''. ''É claro que Portugal está no meu coração. Mas sou fissurado pelo Brasil. Adoro a comida, o estilo de vida mais leve, as pessoas. Escolhi morar e criar meu filho aqui'', valoriza o ator, pai do carioca Vicente, de apenas quatro meses.
Em sua terceira novela como protagonista - Além de ''Aquele Beijo'' e ''Como Uma Onda'', ele também encabeçou o elenco da controversa ''Negócio da China'', de 2008 -, Ricardo se diz avesso a estrelismos e considera-se um operário da atuação. Sempre em busca de novidades, ele acredita que o trabalho mais difícil de sua carreira no Brasil foi em ''Insensato Coração'', exibida no ano passado, no qual deu vida ao brasileiro Henrique e onde teve de atenuar seu sotaque lusitano.
A experiência serviu de base para a construção de seu personagem atual. Apesar de filho de portugueses, Vicente também é brasileiro. ''Quebrei um muro que poderia me limitar para fazer novelas por aqui. É um trabalho diário, com muito exercício e dedicação. Mas é gratificante poder ser quem eu quiser'', acredita.

Atores estrangeiros em novelas brasileiras não são novidade. Mas você é o único que estreou como protagonista e vem mantendo papéis de destaques em folhetins nacionais. O mercado brasileiro se tornou um foco para você?
Com certeza. Já trabalhei e morei em vários lugares do mundo. Mas, em 2004, quando vim para o Brasil fazer ''Como Uma Onda'', me surpreendi. Primeiro, com o esquema de produção das novelas daqui. E depois com o lugar, o povo e seus costumes. Vai fazer oito anos que essa paixão começou. Mas não basta ser só um apaixonado pelo país. É preciso ter trabalho e ser valorizado. E tanto na Globo, como nas outras emissoras nas quais já trabalhei, me senti muito satisfeito e pronto para novas oportunidades.
Em 2009, você deixou Portugal e veio morar no Rio de Janeiro. Essa mudança foi pensada para o crescimento da sua carreira por aqui?
Estava postergando essa mudança. Durante sete anos, meu esquema de trabalho era metade do ano lá, a outra aqui. Ano passado, a Globo, sabendo também dessa minha vontade de querer ficar aqui, decidiu investir um pouco mais forte em mim. Por isso, minha base agora é Rio de Janeiro. Essa mudança me deu a possibilidade de fechar um bom contrato. E me trouxe a tranquilidade e a certeza de que agora posso desenvolver um trabalho sólido, correto e cheio de perspectivas. A primeira dessas possibilidades foi a participação em ''Insensato Coração''. E agora em ''Aquele Beijo''.
''Aquele Beijo'' está entrando em sua reta final. O que o Vicente representa para a sua carreira?
O trabalho para essa novela foi intenso. Na mesma proporção, foi um personagem muito divertido de fazer. É um tipo atrevido, que mexe com a trama e não fica esperando as coisas acontecerem. Ele é um cara leve e do bem. As cenas dele me permitem improvisos e brincadeiras com meu recém-adquirido sotaque brasileiro (risos). Acho que a importância dele na minha trajetória é mostrar que não preciso me limitar. Posso fazer um bonzinho português, um vilão brasileiro, um golpista americano. Basta ter dedicação para estudar.
Nesta mistura entre as culturas brasileira e portuguesa, você chega a se confudir?
Mais em Portugal do que no Brasil. Lá eu vivo colocando expressões brasileiras nas conversas. Meus amigos ficam se divertindo às minhas custas (risos), me chamam de ''Brazuca''. A maneira mais eficaz de pegar o jeito brasileiro é vivenciá-lo. Como estou gravando muito e mergulhado na cultura daqui, acaba saindo naturalmente. Percebo isso também quando mando algum e-mail. Quando vou reler, está tudo misturado.
A primeira vez que você interpretou um brasileiro foi em ''Insensato Coração'', de 2011. Como está sua relação com as expressões e o sotaque brasileiros?
Cheguei à conclusão de que não poderia passar minha vida toda trabalhando na Globo só fazendo o personagem do núcleo português. Eu farei o português sempre que necessário, mas também quero fazer o brasileiro cada vez melhor. É por isso que me dedico às aulas de fonoaudiologia com a Leila Mendes, a mesma que me preparou para ''Insensato Coração''. Treino duas ou três vezes por semana. Depende do roteiro. Acho o resultado muito bom. Nas ruas, a repercussão é das melhores. Sinto que já deixaram de pensar em mim como ''aquele português''.
Acha que isso também se reflete nos convites de trabalho?
Acho que sim. Atualmente, as propostas profissionais que chegam até mim passam longe de personagens portugueses. Fico muito feliz com isso. Foi árduo chegar até este ponto. A vida perde a força se você não tem objetivos. O meu é construir, trabalhar e me dedicar para a atuação, sem importar a nacionalidade do papel. Quanto mais diferente, melhor. A globalização do mundo facilita esta mobilidade de personagens. É possível encontrar pessoas de todas as nações, em todos os lugares. E os autores querem retratar isso nas novelas.

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