Um polemista de primeira grandeza
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sábado, 03 de janeiro de 1998
Ademir Fernandes Agência Estado 
Arquivo FolhaHenfil: com seus traços ele não perdoou nem esquerda nem direitaNo dia 4 de janeiro de 1988, todos os artistas que participavam do show Bomba H, no bairro paulista da Moóca, já haviam se apresentado quando a notícia foi dada à platéia calculada em quatro mil pessoas: morreu Henfil. Em meio à emoção geral, e ao som dos acordes de O Bêbado e a Equilibrista, foi lida a mensagem que o compositor Aldir Blanc mandara do Rio, em homenagem ao amigo: ..eu, que sou filho único, gostaria de ter irmãos assim, briguentos, ternos, malucos...
O show, idealizado pelo publicitário Carlito Maia, foi organizado para ajudar os três irmãos - Henrique Souza Filho, Francisco Mário e Herbert de Souza, o Betinho - mas eles próprios sugeriram que a renda fosse dividida com o Gapa - Grupo de Apoio à Prevenção da Aids. Eles eram hemofílicos e contraíram o vírus da Aids por meio de transfusões de sangue.
Chico Mário morreu pouco tempo depois e, mais recentemente, o País também perdeu o sociólogo Betinho, que nos últimos anos de vida foi transformado em exemplo de dignidade e coragem, como lembra o crítico teatral Alberto Guzik. Henfil nasceu no dia 5 de fevereiro de 1944 em Nossa Senhora do Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, e morreu aos 43 anos.
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Cresceu revoltado com a doença, já que não podia sofrer nenhum corte, porque a hemorragia poderia ser fatal, e ainda aguentava as provocações dos colegas de escola e de rua. Em 1962, começou a colaborar na revista Alterosa, de Belo Horizonte, que tinha o escritor Roberto Drummond como editor. Depois, passou pelo Diário de Minas, Diário da Tarde, Última Hora, Jornal dos Esports, Pasquim e Jornal do Brasil.
Personagens inesquecíveis- Henfil criou personagens inesquecíveis como o Urubu, Bacalhau e Pó-de-Arroz para tiras de esportes, e mais os Fradinhos, a Graúna, o Bode Francisco Orellana. Sempre fiel ao estilo irreverente e provocador, criou o Cemitério dos Mortos Vivos, chefiado pelo Caboclo Mamadô, trabalhou na TV (TV Mulher, na Globo) e teve textos e personagens adaptados para o teatro (Revista do Henfil, espetáculo produzido por Ruth Escobar).
Também ficaram famosas suas cartas à mãe, dona Maria, publicadas na revista IstoÉ, nas quais fazia ácidos comentários sobre sua infância, a política e os políticos nacionais. Henfil viveu durante algum tempo em Nova York, o que o levou a uma incursão pelo cinema, com Tanga - Deu no New York Times, além do livro Diário de um Cucaracho. Sua visita à China também rendeu outro divertido livro.
O trabalho mais completo sobre a vida do artista definido como o herói punk do cartum foi escrito em 96 por Dênis Moraes, doutor em Comunicação e Cultura da UFRJ. Para escrever O Rebelde do Traço, de 564 páginas, Moraes pesquisou durante quase três anos e ouviu cerca de 1.500 pessoas. O grande carisma do Henfil me abriu todas as portas, afirmou o autor. Mesmo sendo um polemista de primeira grandeza, um sujeito que não perdoou nem direita nem esquerda, foi impressionante descobrir que ninguém guarda mágoa dele.


