Quase um ano depois, ainda faltam explicações convincentes para justificar o premio máximo dado a ''O Pianista'' no último Festival de Cannes. Entre outras, todas com rala sustentação, estaria o reconhecimento a um sólido produto francês, havia um bom tempo sem botar as mãos na Palma de Ouro. Ou o peso histórico sempre coercitivo de um tema - o Holocausto - que mexe fundo no imaginário emocional das pessoas, seja um David Lynch na presidência daquele júri, seja um anônimo espectador numa sala de exibição em Quixeramobim. Principalmente por este motivo, é até prudente alinhar ''O Pianista'' ao lado de ''Chicago'' nas contas de chegada ao Oscar, dia 23. Negar esta possibilidade seria ignorar a quase secular influência que a comunidade judaica internacional exerce na indústria cinematográfica. E enquanto se aguarda a cerimônia de premiação, o filme de Roman Polanski, em lançamento nacional, já pode ser conferido - veja a programação de cinema na página 2.
Há sempre o risco de ser rotulado de anti-semita. Mas cabe uma proposta, tão singular quanto de aceitação impossível, dadas as circunstâncias: não seria chegado o momento de uma moratória para os ''filmes de Holocausto''? De acordo com a entidade americana ''Christian Science Monitor'', nos últimos 13 anos foram realizadas 170 (!) produções sobre o assunto - nenhum tema histórico jamais recebeu tal atenção cinematográfica. Enquanto seria rematada tolice minimizar sua importância, ao mesmo tempo seria burrice não admitir que há uma boa dose de excessos.
Um dos mais recentes filmes sobre o argumento em questão é este ''O Pianista'', marcando a volta de Roman Polanski à sua Polônia natal - ausente há 40 anos desde sua entusiástica estréia em 1962, com ''A Faca na Água''. ''The Pianist'' é baseado na autobiografia de Wladyslaw Szpilman, pianista e compositor judeu-polonês que sobreviveu à barbárie nazista no chamado Gueto de Varsóvia, durante a Segunda Guerra Mundial. Nas primeiras cenas, Szpilman está ao piano interpretando Chopin em programa de rádio ao vivo quando as primeiras bombas alemãs caem sobre a cidade. Ele continua a tocar: em defesa da arte é um destemido. Mas a História avança e o jovem artista tenta sobreviver com toda sua família, afinal deportada para os campos de extermínio. Szpilman se esconde, é ajudado por amigos, pela resistência polonesa, assiste à revolta do gueto e da cidade, antes que Varsóvia seja libertada pelos russos. Neste meio tempo, ele é ajudado por um ''bom alemão'', personagem que irá conferir à trama sua dimensão universal segundo as aprovadas regras bem pensantes.
É no mínimo curioso - e decepcionante - observar como o autor de ''Chinatown'' e ''Tess'' adaptou, com uma pose imperturbável, o livro autobiográfico e homônimo escrito pelo próprio Szpilman, com a gravidade do tema histórico servindo como garantia a um academicismo com o peso de uma tonelada. Esta laboriosa ilustração, onde cada plano surge apoiado numa frase, é sempre carente de vibração. A característica linear da narrativa tem pelo menos o mérito, durante a primeira parte que descreve a sorte dos judeus de Varsóvia, de evitar toda a antecipação do destino que os aguarda. O processo se inverte, quando Szpilman se torna o escondido herói solitário, na excessivamente longa e repetitiva parte central. Todos sabem que ele será salvo, e então sentem que um artifício da direção excluiu qualquer relação emotiva com o personagem. Quanto ao terceiro ato, fica evidente que foi estrategicamente perpetrado, arredondando uma produção que confia demasiadamente nas virtudes técnicas e estéticas.
Adrien Brody, que concorre ao Oscar de melhor ator, é um Szpilman convincente quanto ao depauperamento físico - magro, macilento, enfraquecido, doentio. Mas o que vai pela cabeça do personagem? Sem informações ou atitudes fornecidas pelo roteiro, a não ser a espera arrastada e passiva, fica a impressão que o personagem optou mesmo e somente por salvar a própria pele. Neste sentido, o filme se assemelha a um encontro entre ''O Diário de Anne Frank'' e ''Náufrago''. O que, convenhamos, é anedota de gosto duvidoso e muito pobre para ilustrar o cinema realizado por uma inteligência outrora fulgurante como de Polanski.

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