Um poeta toma a palavra
Marcelo Montenegro encerra a 38ª Semana Literária do Sesc com a performance 'Tranqueiras Líricas'
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de setembro de 2019
Marcelo Montenegro encerra a 38ª Semana Literária do Sesc com a performance 'Tranqueiras Líricas'
Marcos Losnak 
A poesia nasceu como arte da oralidade. Com o passar dos séculos abandonou suas origens para mergulhar na arte da escrita.
Nas últimas décadas vários poetas brasileiros passaram a realizar caminho de retorno: levar a palavra escrita de volta para a experiência da palavra falada. Entre eles está o paulista Marcelo Montenegro que participa da 38ª Semana Literária Sesc com o show “Tranqueiras Líricas”. A apresentação, com participação do guitarrista Fabio Brum, acontece neste domingo (dia 29) no Sesc Londrina Cadeião, a partir da 17h, encerrando o evento.
Marcelo Montenegro é autor de “Orfanato Portátil” (2003) e “Garagem Lírica” (2012). Em 2018 a editora Companhia das Letras publicou “Forte Apache”, obra que reúne num único volume os dois livros anteriores que estavam esgotados e também uma seleção de textos inéditos. No ano passado lançou o CD “Tranqueiras Líricas”, registro em estúdio do espetáculo poético que apresenta desde 2005.
A poesia de Marcelo Montenegro é marcada por uma sucessão de imagens sobre imagens. Há a predileção pelas breves ações, pelos pequenos acontecimentos, pelas discretas percepções do cotidiano. Também há a presença de pequenos afetos transformadores dentro de uma tristeza sutil e acolhedora. E um particular olhar sobre o silencioso desamparo do amor.
A seguir, Montenegro fala sobre sua literatura e a apresentação de “Tranqueiras Líricas”.
“Tranqueiras Líricas” não é um sarau literário, como também não é um show de música, mas trafega entre os dois. Como você desenvolveu essa linguagem?
Fui desenvolvendo no caminho. Sou meio tímido, então não sou exatamente um ‘performer’. Eu apenas digo os poemas. O que no fim das contas combina com os textos, com a simplicidade que venho tentando construir na minha poesia, dá uma informalidade para as apresentações também. Claro, tudo isso com a parceria do Fabio Brum. A música dele melhora as coisas que eu digo.
Em sua literatura, qual a diferença entre a palavra escrita e a palavra falada?
Minha poesia é feita para o papel, ou seja: meu lugar é a palavra escrita. Mas como a música sempre teve uma importância ‘literária’ para mim, elementos como ritmo e comunicação são cruciais no meu trabalho de linguagem. Por conta disso, muitos dos meus poemas também funcionam quando ditos em voz alta. O fato é que essa coisa da poesia falada ganhou vida própria, a ponto do “Tranqueiras Líricas” virar disco. Aliás, saiu praticamente junto com livro “Forte Apache”. Não foi planejado, mas foi bacana essa coincidência. Deu uma sensação de cumprimento de um ciclo do meu trabalho.
Você e Fabio Brum apresentam o “Tranqueiras Líricas” há mais de uma década. O que mudou nesse tempo todo, quando tudo começou 14 anos atrás, até a apresentação que será realizada em Londrina na 38ª Semana Literária Sesc?
Com certeza estamos melhores. Eu, principalmente, por conta do palco não ser um lugar natural para mim. Fazemos o espetáculo em duas versões, basicamente. Com banda ou só eu e o Brum, que é aversão original, onde tudo começou. É ela que vamos apresentar, a versão original.
Sua poesia é marcada por uma grande quantidade de imagens. É algo natural ou estrategicamente pensado?
As duas coisas. Assim como a música, o cinema é importante na minha formação, então vem daí esse gosto de dizer com imagens. Engraçado que descobri depois uma formulação do T.S. Eliot que meio que me explicou o que eu já fazia: se você quer transmitir uma emoção no poema, crie um “correlato objetivo” para ela. Enfim, é o que move as narrativas visuais: não explique, mostre.

Seus versos não retratam uma existência repleta de grandes acontecimentos. Retratam pequenas ações, breves acontecimentos, discretas percepções do cotidiano. Qual sua intenção nesse tipo de retrato?
Como diz um personagem do filme “Separações”, de Domingos Oliveira: “A grandiloquência é uma deselegância!” (risos). Eu acho assim: na profundidade da vida – de estar vivo, aqui, agora – sempre me pareceu melhor captada pelo efêmero, pelas coisas ‘menores’, aparentemente banais. Os artistas que mais admiro, de Tchékhov a Seinfeld, atuam nesse território. Enfim, é como eu vejo a vida.
Você não é um poeta prolixo, prefere publicar pequenos livros com grandes hiatos de tempo. Por quê?
Meu processo de escrita é lento, mexo muito nos poemas, o que faz com que os intervalos entre um livro e outro sejam grandes também. Agora, independente disso, eu gosto de coisas concisas.
Serviço:
“Tranqueiras Líricas” – Marcelo Montenegro
Quando: domingo (29) – 17h
Sesc Londrina Cadeião – Rua Sergipe, 52
Gratuito
Fragmentos
LITERATURA COMPARADA
Quando o MUNDO é um cruzamento
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PAZ é sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
BUQUÊ DE PRESSÁGIOS
De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapato.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio.
(Poemas de Marcelo Montenegro que fazem parte do espetáculo “Tranqueiras Líricas” publicados no livro “Forte Apache”)


