O poeta Manoel de Barros completa 90 anos em dezembro, mas, a cada dia, garante viver uma nova ascensão para a infância. Um estado de espírito tão forte que, em 2003, ele estreou na prosa justamente com um livro em que iniciava a trilogia sobre sua vida. E, como se trata de Manoel de Barros, não era um retrato fiel, mas um relato puramente personalizado. Assim, depois de ''Memórias Inventadas - A Infância'', chega agora às livrarias ''Memórias Inventadas - A Segunda Infância''.
O que seria o livro da mocidade transformou-se em segunda infância que é, convém explicar aos desavisados, a forma como o poeta trata de sua maturidade. Os textos, reunidos em uma caixinha e acompanhados das iluminuras de sua filha, Martha Barros, percorrem temas vitais da existência, como a descoberta do amor, do sexo e até do comunismo. Falam das peladas de barranco do Dona Emília Futebol Clube até da indiana da pensão na Rua do Catete ela, 25 (ele, 15), deixava a porta do banheiro meio aberta e isso ''abatia'' o poeta.
A linguagem continua artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade. ''Porque me abasteço na infância e minha palavra é Bem-de-Raiz e bebe na fonte do ser'', escreve Barros, que respondeu às seguintes questões da reportagem.

Como surgiu seu amor pelas coisas sem importância?
É que as minhas palavras se dão melhor no cisco do que no asfalto. Se dão melhor nas águas tristes do que nos salões. (Chamo de águas tristes aos brejos.) Porque no cisco as palavras encontram os bichinhos de brincar: as formigas, a lesma, as lacraias e os lagartos. E nos brejos as palavras podem se encontrar com as rãs, os sapos, os caracóis e as pedrinhas redondas. No chão minhas palavras florescem. Eu não comando as minhas palavras. Elas que gostam do chão e das coisas desimportantes. As palavras me elaboram.

O senhor disse, certa vez, que poesia não é para contar história, poesia é um fenômeno de linguagem. Seria improvável, então, vislumbrar ''Memórias Inventadas'' escrito apenas como poesia?
Tenho que ''Memórias Inventadas'' é prosa poética. Faz poesia portanto. É fenômeno de linguagem por isso. Minhas palavras das memórias foram tiradas das minhas primeiras percepções: as de ver, as de ouvir, as de tocar... Estão ainda ignorantes do mundo moderno e das suas tecnologias. Nessas memórias inventadas o meu atraso está garantido.

Infância, etimologicamente, é ausência de voz. Mesmo assim, o senhor pretende continuar as ''Memórias Inventadas'' com mais uma infância, a terceira. Como é isso?
É porque o livro foi arrancado da infância. Poesia, eu repito, é Bem-de-Raiz. Pelo menos a minha foi, é, e será aos 90 anos. Minha imaginação construtora busca sempre o material de construir sua linguagem lá na raiz do Ser.

As iluminuras de Martha Barros, além de muito bonitas, estão em completa sintonia com seu texto. O trabalho dela também é fonte de inspiração para o senhor?
Admiro e amo as iluminuras da Martha. Acho que ela carrega também um dom de imaginar suprido pela infância. Sua pintura casa tão bem com os meus textos! Acho que isso é genético.

O mundo contemporâneo está explícito nesses seus versos. A prosa seria, portanto, o melhor abrigo para histórias pessoais?
Acho que na minha prosa também o mundo contemporâneo está explícito. Minha preocupação é com a estrutura da linguagem. Eu só queria modificar um pouco a estrutura linguística. Tanto na prosa como na poesia meu gosto é modificar. Nunca aceitei o mundo que está aí. Essa é uma história pessoal.

Como está seu projeto de retomar a ''Theologia do Traste'', que não seria um livro de meditação, mas como um derradeiro livro de poemas?
''Theologia do Traste'' foi reduzida a um poema que está publicado no meu último livro de versos: ''Poemas Rupestres''.

O senhor tem algum ritual de criação ou a base de sua produção é a pura inspiração?
Confesso que inspiração eu só conheço de nome. O que eu tenho é excitação pela palavra. Quando uma palavra me excita, eu vou atrás da história dela. Vou nos etimologistas, ando pelo latim, procuro os caminhos dessa palavra. Nessa procura, outras palavras se juntam e, às vezes, pedem um poema. Eu obedeço.

Serviço
- Livro ''Memórias Inventadas - A Segunda Infância'', de Manoel de Barros. Editora Planeta do Brasil, 80 páginas, R$ 35,00.

mockup