UM POETA QUE FEZ HISTÓRIA
France Presse
Com a morte do escritor Rafael Alberti, na última quarta-feira, desaparece não apenas o último representante da Geração de 1927, um dos movimentos poéticos mais importantes de toda a literatura espanhola, mas também uma testemunha fundamental da história da Espanha.
Nascido em 16 de dezembro de 1902, no Porto de Santa María (província andaluza de Cádiz, sul da Espanha), Alberti logo se mudou com sua família para Madri. O mar sempre esteve muito presente em sua vida e em sua obra, e o livro que o revelou para o mundo - Marinero en Tierra - e o levou a ganhar, em 1925, o Prêmio Nacional de Literatura, é um longo canto de amor ao mar.
Militante do Partido Comunista desde 1933, Alberti nunca abandonou seu passado político - Não me arrependo de nada. Não sou um ex-comunista, declarou, ao completar 90 anos - o que o obrigou a viver fora da Espanha desde o final da Guerra Civil, em 1939, até depois da morte de Franco, ocorrida em 1975.
Durante o conflito, Alberti foi secretário da Aliança de Intelectuais Antifascistas e recebeu, em Madri, muitos dos personagens míticos que passaram pela Espanha como demonstração de seu compromisso com a República: Robert Capa, Ernest Hemingway, Elsa Triolet e Louis Aragon ou o prêmio Nobel chileno Pablo Neruda.
De seus anos de guerra em Madri destaca-se um episódio que entrou para o folclore, o de que Alberti teria salvo os quadros mais importantes do Museu do Prado - entre eles As Meninas, de Velázquez - durante um bombardeio.
Em 27 de abril de 1977 voltou a Madri depois de um longo exílio, primeiro na Argentina (1940-1962), e depois em Roma (1962-1977). Foi recebido por uma multidão no aeroporto de Barajas. Fui embora da Espanha com o punho fechado e volto com a mão aberta, como sinal de paz e reconciliação de todos os espanhóis, declarou na ocasião.
Quando foi investido doutor honoris causa pela Universidade Complutense de Madri, 1992, Alberti assegurou que era estranho receber esta distinção já que vivia matando aula na escola.
Mais do que uma relação puramente acadêmica, Alberti cultivou uma amizade pessoal com algumas das maiores figuras da cultura espanhola do século XX - de Federico García Lorca a Pablo Picasso, passando por Luis Buñuel ou Salvador Dalí, além de todos os membros da Geração de 27.
Os principais poemas de Alberti - Marinero en Tierra (1925),Sobre los Angeles (1929), A la Pintura (1948) e Roma Peligro para Caminantes (1968) - não só são estudados em todos os colégios espanhóis, mas muitas de seus versões, cantadas pelos mais variados artistas, fazem parte da tradição oral da cultura espanhola.
Pintor, além de poeta, Alberti também é foi autor de obras teatrais - El Hombre Deshabitado (1930), El Adefesio (1944) ou Noche de Guerra en el Museo del Prado (1954) - e de dois livros de memórias, fundamentais para se conhecer o passado recente da Espanha, La Arboleda Perdida (1959 e 1987).
Sempre usando uma camisa florida - inclusive nos atos mais solenes, como a entrega do prêmio Cervantes, em 1983 - vigoroso e enérgico até seus últimos dias, Alberti era um clássico muito antes de sua morte.
Tú sabes bien que en mí no muere la esperanza/Que los años en mí no son hojas, son flores/que nunca soy pasado sino siempre futuro, escreveu, em um poema dedicado a sua segunda esposa, María Asunción Mateo, 44 anos mais jovem do que ele, com quem se casou depois do falecimento, em 1988, de sua primeira mulher, a escritora María Teresa León.
Com seu desaparecimento, uma parte da história da Espanha também desaparece. Ele foi o poeta que cantou a vida, o amor, a luta pela liberdade, e, principalmente, o mar, que, em sua obra, simbolizou todas essas coisas. Si mi voz muriera en tierra/llevadla al nivel del mar/y dejadla en la ribera, diz um de seus mais célebres poemas. Alberti nasceu e morreu ao som das ondas, como era seu desejo.





