Houve um momento, na véspera do início da rodagem, em que Wally Salomão quis desistir. Poeta e performer, ele sempre resistiu aos apelos de amigos cineastas para filmar com eles. Foi cooptado ''por uma louca maravilhosa'' e durante toda a semana passada fez sua estréia como ator de cinema interpretando... um poeta. Não um poeta qualquer, mas o grande Gregório de Mattos, que antecipou, na sua poesia libertária do século 17, a alma da Bahia.
Decorridos mais de 300 anos de sua morte, em 1695 (ou 96), o Boca do Inferno está mais vivo do que nunca. O revival não envolve só o filme que Ana Carolina está terminando de rodar. Livro lançado pela Imago (''O Mapa do Labirinto'', de Francisco Topa) inaugura todo um projeto da editora para resgatar a obra e a própria figura do poeta satírico que é considerado o grande nome da literatura brasileira no período colonial. O livro está nas lojas, o filme ainda se faz. No início do mês, ela deu início à rodagem. É um curta, quase um média, que leva o sugestivo título de ''Gema Quem Gemer'' ou ''O Pouco Que Se Sabe de Gregório de Mattos''. Depois de vários filmes sobre mulheres - a trilogia formada por ''Mar de Rosas'', ''Das Tripas Coração'' e ''Sonho de Valsa'', mais o recente ''Amélia'' -, Ana Carolina faz o que até hoje não tivera coragem. Gregório de Mattos antecipa a ficção sobre homens que ela pretende realizar a seguir.
Não é documentário, não é ficção, não é docudrama. É um filme de (e sobre) poesia. Vem de longe o fascínio de Ana Carolina pelo Boca do Inferno. ''É o poeta que, na poesia, não sublima, mas encara. Acho que o Gregório é a fonte na qual todos bebemos.'' Por todos, entende Mário e Oswald de Andrade, Caetano Veloso, ela mesma. ''É um filme para ser saboreado, em que a palavra, a poesia e a literatura batem bola com o cinema. Fiquei com vontade de fazer um filme assim e só.''
Essa vontade de filmar só está saindo do papel pela tenacidade da diretora, uma das mais importantes do cinema brasileiro. No atual momento da economia no País, o processo de captação está difícil. Ana Carolina está fazendo o filme com orçamento abaixo do necessário. Seu roteiro foi premiado pelo Ministério da Cultura e ela ganhou um pouco de dinheiro da Odebrecht - ''Eles não fazem questão de divulgar o patrocínio, mas pode incluir na sua reportagem, assim mesmo.'' Conseguiu juntar R$ 138 mil. O orçamento mínimo estabelecido pela produção era de R$ 165 mil. A falta de dinheiro não a desanima. O importante era não ficar outros dez anos sem filmar, como ocorreu entre o fim da trilogia e ''Amélia''.
Por economia, ''mas também porque sou muito desavergonhada'', ela acumula a função de diretora com a de diretora de arte. É um filme de época e as cenas que dão início à produção foram rodadas na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói. A Fortaleza de Santa Cruz, hoje transformada em museu, é cenário de quase todos os filmes e novelas de época que são feitos no Brasil. Foi lá que Paulo Thiago filmou cenas importantes de ''Policarpo Quaresma''. Ana Carolina sabe que ele não é exatamente da época focalizada, nem possui uma arquitetura similar à dos fortes em que Gregório de Mattos foi prisioneiro na Bahia. Não importa. Como sempre, o que ela propõe é algo mais intrigante. Na trilogia, investigou a mente de mulheres em choque com estruturas repressoras, em ''Amélia'' mostrou o choque de culturas, opondo, à célebre Sarah Bernardt, em sua viagem ao País, a história de três matutas de Minas. Ana Carolina gosta de fazer cinema como quem faz psicanálise. A autoanálise e a análise do Brasil. Já era assim em ''Trabalhadores do Brasil'', seu documentário, que investigava, psicanaliticamente, o mito de Vargas como pai do povo.
''Gema Quem Gemer'' é um filme necessário, que Ana Carolina sente que tinha de fazer. Por meio dele, quer fazer a ponte entre o passado e o presente e continuar investigando nossas raízes culturais, nossa identidade como nação. O fato de ser um filme curto, 25 ou 30 minutos, não quer dizer nada. ''Pode me levar a um projeto maior'', ela diz. Não quer entrar em detalhes, mas diz que o curta sobre Gregório pode ser seguido de outros curtas sobre poetas baianos, até formar um longa. Quais? ''Gregório leva de forma quase natural a Castro Alves, daí pode-se fazer a ponte para Caetano.'' Justamente Caetano Veloso. Ela chegou a pensar nele como o seu Gregório de Mattos, mas Caetano, como diz, ''é inacessível''. Outra opção foi Pedro Paulo Rangel, mas seria um Gregório de Mattos muito soft. Está satisfeitíssima com Wally Salomão. Ele tem a dimensão do personagem, dos seus versos, da sua sensualidade. ''Gregório dormiu com todas as freiras dos conventos da Bahia'', diz a diretora. As poderosas Marília Gabriela e Ruth Escobar também estarão no elenco.
Quando sentiu o peso da responsabilidade e tentou fugir, Wally foi pedir apoio a um amigo filósofo. Queria que ele respaldasse sua decisão de desistir. O amigo foi curto e grosso: ''Você é baiano; olhe para a sua poesia, para a sua boca; você é Gregório de Mattos, não tem como fugir ao estigma do papel.'' Wally, que sempre admirou o poeta, resolveu encarar o desafio.

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