LEITURA -

Um poeta na pandemia

'O Enigma das Ondas' novo livro de Rodrigo Garcia Lopes, transforma a pandemia em corpos lutando por ar

Marcos Losnak / Especial para Folha 2
Marcos Losnak / Especial para Folha 2

O poema nasce enquanto o procuramos”. Esta é a conduta estética que o poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes coloca em prática em seu novo livro, “O Enigma das Ondas”.

A obra chega às livrarias na próxima semana lançada pela editora Iluminuras. Não reúne apenas poemas criados nos últimos anos, mas também escritos durante a pandemia do coronavírus. O autor olha para os conturbados episódios dos dias atuais como acontecimentos do passado. Faz do distanciamento uma lente de lucidez que abraça todas as possibilidades do pensar e do sentir.



O ambiente marítimo é outro tema presente em “O Enigma das Ondas”. A atmosfera do mar se revela como uma representação, ou como uma experimentação, do movimento constante das ondas que caminham para as zonas de arrebentação da linguagem.

Autor de “Solarium” (1994), “Visibilia” (1998); “Polivox” (2001); “Nômada” (2004), “Experiências Extraordinárias” (2014) e “O Trovador” (2014), entre outros, Rodrigo Garcia Lopes a seguir fala sobre seu novo livro.


O que significa lançar um livro de poesia no meio de uma pandemia?

Achei interessante e oportuno nesse momento, pois coloca a importância da poesia, uma coisa afirmadora de vida em tempos regidos por Tânatos, e coloca a suposta irrelevância da poesia brasileira hoje em perspectiva. O difícil é lidar com dois vírus ao mesmo tempo: o coronavírus e o outro, do autoritarismo e da ignorância. Como seu lançamento acabou atrasando devido à pandemia e ao cenário caótico, “O Enigma das Ondas” foi crescendo. Novos poemas foram acontecendo e lhe dando corpo e substância. Estou bem feliz com o resultado e com o trabalho da Iluminuras.


O livro traz vários poemas que abordam a epidemia do Covid 19. Como é criar poesia sobre um tema tão aterrador?

Um truque foi escrever de coisas que estavam e estão acontecendo como se já fossem parte do passado, como no poema “Pandora”. Os últimos foram escritos em agosto de 2020. Nestes poemas recentes acabei trabalhando com as restrições impostas por formas fixas fechadas. Pareceram-me adequadas para captar essa atmosfera de confinamento e paralisia que vivemos hoje, de incerteza, de eterno retorno do mesmo, em que parecemos ser prisioneiros do presente. Paradoxalmente, estes poemas foram trabalhosos, mas me deram uma liberdade inédita.

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. | Elisabete Ghisleni/ Divulgação
 

Você considera que a epidemia alterou a produção da poesia com o “novo normal”?

É inevitável que a pandemia – incluindo aí a política com o desmonte e a destruição do País a que estamos assistindo impotentes – não esteja afetando a produção literária de alguma forma, seja na ficção quanto na poesia. Teremos a confirmação disso nos livros que serão lançados nos próximos meses e no ano que vem. Já a poesia continuará sua tarefa de “estranhar” a realidade, de questioná-la, de enriquecê-la, seja ela nova, “normal” ou não.


 Em “O Enigma das Ondas” você trabalha com vários gêneros e várias formas poéticas. Por quê?

Acho que é uma característica da minha poesia desde que comecei a escrever. Talvez esta ausência de estilo talvez seja até um estilo, não sei, os críticos e leitores poderão dizer. Sempre achei que o poeta contemporâneo não pode abrir mão de todo o repertório de formas produzidas pela humanidade até hoje, da anáfora bíblica ao rap, ao poema longo e paratático. Acho que cada poema pede uma forma específica. Há um motivo, mesmo que inconsciente, para um poema seja um soneto e outro uma sextina.


Os poemas de “O Enigma das Ondas” também possuem uma marcante presença do mar. Por quê?

Resposta – O mar sempre foi uma presença forte em minha poesia. A natureza em geral, mas a experiência das cidades também, me incitam a transformá-las em pensamento poético. Acho que resumo essa relação no poema longo que dá nome ao volume. O livro tem 91 poemas, em quatro seções bem distintas, e muitos deles são “ambientados” em cidades, lugares imaginários, oníricos, reais ou super-reais. Outros exploram aquilo que António Damásio chamou de “a consciência da consciência” e “a sensação do que acontece”. No livro pude reintroduzir o sentido etimológico da palavra “versus” (retorno, virada), para a imagem do mar como modelo poético. A onda como linha dinâmica. O poema como uma zona de arrebentação.

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. | Reprodução
 

Serviço:

O Enigma das Ondas”

Autor – Rodrigo Garcia Lopes

Editora – Iluminuras

Prefácio – Silviano Santiago

Páginas – 156

Quanto – R$ 53 e R$ 32 (e-book)

Desconto de 40% no site: www.editorailuminuras.com.br




Pandora


Pânico, pandemia, pandemônio:

é o inimigo invisível, é o novo demônio,

é a boca coberta por um pedaço de pano,

é o humano reaprendendo a ser humano.

É uma carreata de caixões pelas ruas de Turim,

é o translúcido azul do céu de Pequim.

É o papa rezando na São Pedro deserta,

são as águas transparentes dos canais de Veneza.

Parece que faz tanto tempo que tudo aconteceu,

presos no labirinto com Minotauro e Teseu.

Legiões de desempregados em Teerã, São Paulo, Paris.

As calçadas de Guayaquil estão cheias de cadáveres.

Estão pregando tapumes nas fachadas.

Todas as fronteiras foram fechadas.

Os médicos e coveiros estão exaustos.

Os jornais nem noticiam mais o holocausto.

São pilhas de corpos-números cobertos por um véu,

São poemas que jamais sairão do papel.

Os confinados batem panelas, invocam os magos,

pumas invadem as avenidas de Santiago.

É uma vida pulsando entre a pedra e a espada,

é o prenúncio de uma economia global robotizada.

São velórios e shoppings vazios, praias desertas,

é o começo de um renascimento, é o fim de uma era.

É o silêncio ensurdecedor e o medo de morrer,

é o tempo pra ler toda a obra de Shakespeare,

é a chance de ser o maior experimento

de controle social de todos os tempos.

É um exército branco higienizando as cidades,

é um planeta em quarentena por toda a eternidade.

É um homem que saiu do isolamento e nunca mais foi visto,

são fanáticos gritando O Vírus é o Anticristo.

São anjos em polvorosa sobre os céus de Berlim,

são amantes aprendendo a amar enfim.

Já ninguém ouve o que os agonizantes urram,

os metrôs voltaram hoje a circular em Wuhan.

É solidão compulsória, é um estado de sítio,

são coiotes vagando livres por San Francisco,

É uma flor desabrochando durante a tempestade

(pois quando tudo acabar talvez seja tarde).

É a solidão futurista da Times Square,

é o suicida alcançando um revólver.

São navios de cruzeiro proibidos de atracar,

são hospitais abarrotados em Milão, Rio, Dacar.

Pássaros continuam voando, geleiras caindo,

há um pôr do sol distante, solitário e lindo.

É viver entre as paredes dos parênteses

em reticências que se alongam como meses.

É o mundo inteiro em stand-by,

é o corpo lutando por ar.


(Poema de 'O Enigma das Ondas, de Rodrigo Garcia Lopes)







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