Hoje, Ferreira Gullar faz 70 anos. Várias homenagens estão sendo feitas, entre elas o lançamento de suas obras completas, um site no portal UOL e duas exposições no MAM do Rio de Janeiro
Foi um longo percurso. Até há poucos anos, citá-lo em algumas rodas literárias era motivo de zombaria. Hoje em dia é difícil encontrar alguém disposto a questionar sua posição de maior poeta vivo do país. Aos 70 anos, a serem festejados neste domingo, Ferreira Gullar vê enfim sua obra desgrudar-se dos anátemas que tanto a eclipsou ao longo das décadas.
O aniversário está sendo efusivamente comemorado. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, por exemplo, inaugurou duas mostras na semana passada em homenagem ao poeta maranhense. A primeira faz uma retrospectiva de sua trajetória reunindo textos, fotos, manuscritos, livros, desenhos inéditos e objetos pessoais.
A outra, idealizada pelo pintor e amigo Siron Franco em parceria com a galerista paulista Nara Roesler, apresenta obras de artistas plásticos como Franz Krajcberg, Amilcar de Castro, Carlos Vergara, Tomie Othake e Antonio Dias. Os trabalhos foram dados de presente a Gullar, que preferiu cedê-las ao acervo do MAM.
A badalação continua com o lançamento da antologia ‘‘Toda Poesia’’, que abrange suas obras completas incluindo seu último livro ‘‘Muitas Vozes’’ - com o qual ganhou o Prêmio Jabuti no ano passado - e um CD-brinde onde ele lê seus versos sobre música original de Egberto Gismonti. Além disso, Gullar chega à Internet inaugurando um site pessoal (www.ferreiragullar.com.br), criado pela Conspiração Digital para o portal UOL.
Paralelamente, ele dá os retoques finais no livro infantil ‘‘Um Gato chamado Gatinho’’. ‘‘São poemas que escrevi sobre o meu gato siamês, companheiro de muitos anos. Nunca pensei em escrever literatura infantil. O livro nasceu naturalmente’’ - conta por e-mail de seu apartamento em Copacabana. Vivendo talvez o momento de sua consagração definitiva, a obra de Ferreira Gullar já dividiu opiniões numa certa época, especialmente quando seus versos começaram a refletir as circunstâncias políticas do país.
Pouco antes, no final da década de 50, o poeta atuara na linha de frente da vanguarda ligando-se aos poetas paulistas do movimento concretista, com o qual romperia depois para assinar o ‘‘Manifesto Neoconcreto’’ ao lado de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Amilcar de Castro. Mais tarde, impulsionado pelo espírito de resistência à ditadura, ele se engajou em causas sociais imprimindo teor participante também à poesia.
Na época, fundou o grupo Opinião e foi eleito presidente do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes. Com Oduvaldo Vianna Filho, escreveu a peça ‘‘Se Correr o Bicho Pega, se ficar o Bicho Come’’, que faturou os principais prêmios da temporada. No ano do golpe militar, entrou para o PCB e em 1968 foi preso juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Logo depois, cai na clandestinidade e foge para o exílio morando sucessivamente em Paris, Moscou, Santiago e Buenos Aires. Na capital argentina, escreveu o caudaloso ‘‘Poema Sujo’’, que foi publicado no Brasil sem sua presença e graças a Vinicius de Moraes que trouxe o poema gravado numa fita com a voz do próprio autor. O poema se transformou numa flâmula da luta pela democracia.
Artistas e intelectuais, que costumavam se reunir para ouvir o poema narrado, passaram a exigir a volta do poeta em protestos contra o governo. Já no Brasil, Gullar tornou-se um dos coveiros teóricos mais insistentes das ‘‘vanguardas’’, ao mesmo tempo em que era taxado de poeta populista. Colaborando na imprensa carioca como crítico de arte, lançou em 93 o volume ‘‘Argumentação Contra a Morte da Arte’’ no qual denuncia numa série de artigos os embustes da arte contemporânea.
O livro é bombástico. ‘‘Como é mais fácil destruir que construir’’ – escreve ele no texto de abertura - ‘‘no curso de décadas o que as vanguardas fizeram – com raras exceções - foi desfazer o sistema da linguagem artística, num processo ilusório em que o mais na verdade era menos, e o passo adiante, um passo atrás. Até que se chegou finalmente ao esgotamento da linguagem artística, ou seja: não havia mais o que destruir. Agora, sentados sobre esses escombros, os artistas que insistem na ilusão vanguardista não se dão conta de que o que, no passado, era audácia, hoje é oportunismo; o que antes era ruptura, hoje é conformismo’’.
O volume provocou alvoroço no meio artístico tornando-se uma das principais referência bibliográficas no debate da arte contemporânea. A produção de Gullar, contudo, prosseguiu ao longo da década com a publicação de ‘‘Cidades Inventadas’’ (crônicas), ‘‘Rabo de Foguete’’ (memórias), ‘‘Barulhos’’ (poemas) e o já citado ‘‘Muitas Vozes’’.

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