Um poeta da paixão e do engajamento
Encontro Em 1867, o casal foi para Salvador, onde Eugênia representou o papel principal da peça Gonzaga ou a Revolução de Minas, escrita por Castro Alves especialmente para ela. A obra teve um grande sucesso. Um ano depois, eles viajaram para o Rio de Janeiro, onde Castro Alves encontrou-se com José de Alencar e Machado de Assis, já famosos, que lhe elogiaram a peça e os poemas.
Ainda em 1868, Eugênia e Castro Alves chegaram a São Paulo, pois ele pretendia concluir o curso de Direito. Mas sua sorte começou a mudar. Em 11 de novembro desse ano, o poeta estava caçando aves no então subúrbio de Brás quando, ao atravessar um córrego, a espingarda que levava disparou acidentalmente, ferindo seu pé esquerdo. Durante o período de recuperação, já com os sintomas da tuberculose, Eugênia o abandonou. Muito magoado, Castro Alves escreveu o poema Adeus, no qual declarou; Tu vais em busca de aurora!/ Eu em busca do poente!/ Queres o leito brilhante!/ Eu peço a cova silente!.
O ferimento agravou-se. Em maio de 1869, Castro Alves foi para o Rio de Janeiro. No mês seguinte, seu pé foi amputado. Em novembro voltou para a Bahia. Lá, à beira da morte, ainda encontrou forças para apaixonar-se pela atriz italiana Agnese Trinci Murri. Mas, em seis de julho, aos 24 anos, Castro Alves morreu como a maioria dos poetas do Romantismo: de tuberculose.
Atualmente, mais de 120 anos após sua morte, Castro Alves, ou o Condor, continua um poeta muito popular. O poema O Gondoleiro do Amor (ver texto nesta página) foi musicado e vários cantores gravaram-no. Entre eles, a dupla sertaneja Tonico e Tinoco.
TRECHOSRodrigo Garcia
Agência Estado
Arquivo FolhaHá 150 anos, em 14 de março de 1847, nascia um dos artistas mais engajados politicamente e mais apaixonados do Brasil: Castro Alves. Apesar de não esquecer os amores, grande parte de seus poemas (Vozes dÁfrica e O Navio Negreiro, por exemplo) foi dedicada à luta contra a escravidão. Segundo o crítico Alfredo Bosi, ele expressava o lento mais firme crescimento da cultura urbana, dos ideais democráticos e, portanto, o despontar de uma repulsa pela moral do senhor-servo.
Para demonstrar sua indignação, Castro Alves, também chamado o Poeta dos Escravos, utilizou um estilo bem peculiar, o condoreiro (de condor, um pássaro que voa bem alto), com imagens fortes, escrevendo poemas como se estivesse participando de um comício, como no final do poema O Navio Negreiro, um de seus mais famosos: Andrada! arranca esse pendão dos ares!/ Colombo! fecha a porta de teus mares!. Certa ocasião, ele disse que a praça é do povo como o céu é do condor. Um século depois, para homenageá-lo, Caetano Veloso cantou: A praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião.
Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceira, no município de Curralinho, atual Castro Alves, no interior da Bahia. O pai, Antônio José Alves, era médico. A mãe, Clélia Brasília da Silva Castro, morreu quando ele tinha oito anos.
Primeiros versos Aos 16, foi para o Recife estudar Direito. Lá, conheceu a atriz e poetisa portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha do que ele, o grande amor de sua vida. O romance foi muito atribulado.
Castro Alves começou a escrever poemas ressaltando o talento artístico de Eugênia, que eram lidos nos intervalos das peças que ela representava no tradicional Teatro Santa Isabel. Ele foi se empolgando e passou a fazer versos não mais sobre a atriz, porém sobre a mulher. Alguns muito sensuais para a época, como estes iniciais de A Adormecida: Uma noite, eu me lembro... Ela dormia/Numa rede encostada molemente.../ Quase aberto o roupão... solto o cabelo/ E o pé descalço do tapete rente. Eles moraram juntos num subúrbio recifense.





