UM POETA AFINADO COM O PALCO
Ele odeia o ser humano. É inteligente, muito. O mais autobiográfico personagem do autor. É o Hamlet de MoliSre define o poeta e tradutor londrinense Maurício Arruda Mendonça. O francês a que se refere, criador de Tartufo, O Avarento e O Burguês Fidalgo, tornou-se o foco de Mendonça nos últimos dias. Pois já começaram os ensaios de O Misantropo, montagem com estréia prevista para 7 de junho próximo, no Teatro Núcleo I, em Londrina.
O Misantropo data da fase genial de MoliSre - 1666. A montagem londrinense, orçada em R$ 29,5 mil, será encenada pela trupe Mambembom, que convidou Mendonça para a direção. ááIntegrado por formandos da Escola Municipal de Teatro (EMT), o grupo viabilizou o projeto pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e já captou R$ 6 mil sob o patrocínio da Plaenge Engenharia.
A terceira experiência do poeta na direção não parece preocupá-lo: ele confia na força do texto de MoliSre, na sua notável contundência. Mendonça, tradutor há quase vinte anos, só experimentara a direção recentemente (em 1998), com Baladaviva, peça que enfocava a prevenção contra a AIDS. Há dois anos, adaptou o gênio nova-iorquino de Woody Allen, A Morte Bate À Porta, peça de único ato. Colaborador do Armazém Companhia de Teatro desde 1995, atribui o que sabe de direção a Paulo de Moraes, criador e mentor da trupe londrinense que em 1998 se transferiu para o Rio de Janeiro.
Do texto original de MoliSre, Mendonça pretende preservar tudo, não ambientando os personagens no século 17 nem nos nossos dias: Será uma época indeterminada prevê. O elenco é formado por Leandro Ragazzi, Leila Pontes, Tatiane Monteiro, Claudia Ferrareto, Rodrigo Calistro, Ricardo Bueno, Fernando Delabio, Byron Scouris e Arnaldo Martin. O figurino ficou a cargo de João Marcelino (o mesmo do Armazém), enquanto Mendonça também elaborou o cenário. O texto original, escrito em versos, ganhou na tradução formato prosaico. Mendonça não se lembra de ter visto nenhuma montagem de O Misantropo no País nos últimos 30 anos.
Além da adaptar MoliSre, o poeta voltou a trabalhar com o Armazém. Estreou no último dia 6, no Rio de Janeiro, a peça Da Arte de Subir em Telhados, escrita por Paulo de Moraes e Mendonça, apoiando-se nas mesmas qualidades que destacaram a companhia no cenário nacional - tom farsesco, onírico e fantasioso, realçados por um acentuado trabalho de expressão corporal.
O espetáculo, que está sendo apresentado na Fundição Progresso, no boêmio bairro da Lapa, no Rio, aborda a amizade, a delicadeza que se perdeu no relacionamento entre as pessoas, explica Paulo de Moraes. Segundo o diretor, o grande protagonista é a memória. Assim como na célebre montagem de Alice Através do Espelho (1997), realidade, sonho e imaginação se alternam e entram numa simbiose frenética, criando um fio condutor entre as cenas que se alternam.
Mendonça enfatiza que a trama é simples: voltando de uma cerimônia fúnebre, onde receberam as cinzas do irmão de Das Dores, amigos se encontram em cima do telhado de um casarão abandonado. Conversam, recordam fatos que lhe foram particularmente caros, questionando rumos e destinos.
Com Da Arte de Subir em Telhados, o Armazém volta a fazer teatro lúdico, misturando diversão e filosofia com uma pegada de histórias em quadrinhos, esclarece o diretor londrinense, que nos anos 80, atuou na lendária montagem de Toda Nudez Será Castigada, encenada pelo grupo Delta, de José Antônio Theodoro. Moraes se irrita ao constatar que o espectador de teatro quase sempre é muito passivo, acostumando-se a leituras lineares e se acomodando. Para ele, o teatro tem que oferecer uma outra abordagem, tornando-se um ritual, um acontecimento único, uma celebração.
Na montagem, é enfatizado o trabalho de pesquisa cênica da companhia que, na busca de novas possibilidades na relação palco-platéia, se aproveita da verticalidade da sala de apresentações através da utilização de técnicas e equipamento de alpinismo pelos atores. A casa mágica, importante elemento do cenário, foi construída sobre uma estrutura modular de alumínio, especialmente montada para o espetáculo.
Os interessados em patrocinar O Misantropo podem ligar para (43) 327-0229, enquanto os contatos com o Armazém Companhia de Teatro podem ser feitos com a atriz Patrícia Selonk nos seguintes números: (21) 554-5281 / 9193-4152 / 9753-9291. Ainda não está prevista nenhuma apresentação em Londrina da peça Da Arte de Subir nos Telhados.





