UM POEMA DE JEAN-LUC GODARD
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 2 
A volta de Godard à competição oficial do 54º Festival de Cannes coincide com a comemoração dos 50 anos da revista Cahiers du Cinema. Foi das páginas da prestigiosa publicação francesa que saiu, entre outros, este arqui-provocador responsável - ao lado de François Truffaut, Eric Rohmer e Jacques Rivette (também na mostra competitiva deste ano) - pelo surgimento da revolucionária nouvelle vague. O movimento mudaria a face cansada de meio século de cinema e Godard passaria à história como o artista radical que transformou a maneira de fazer filmes, o cineasta com a mais frequente capacidade de exasperar e fascinar ao mesmo tempo. Era natural e previsível, portanto, a expectativa quanto às novas imagens produzidas por ele. Uma expectativa afinal não levada em conta pela organização do festival, que inexplicavelmente confinou o filme na Sala Bazin, com capacidade reduzida a menos da metade em relação aos dois habituais grandes auditórios, LumiSe e Debussy. O resultado ficou no limite entre o grotesco e o quase trágico, com dignos representantes da mais respeitada imprensa mundial se amontoando à entrada da sala, disputando lugar aos trompaços e reclamando aos berros nos mais variados idiomas. Repercussão a conferir hoje nos principais jornais do mundo.
Aos 70 anos, mantendo pulsante a mesma veia pós-moderna, o diretor de Acossado apresentou ontem aqui em Cannes seu mais aguardado trabalho em anos, LÉloge de LAmour. É um poema cinematográfico denso, espécie de súmula das obsessões godardianas: a arte, a resistência, os livros, a América e os americanos, o cinema, uma ode ao amor, estilo Godard. Embora bem mais estruturado que seus filmes recentes, LEloge de LAmour não tem uma narrativa cronologicamente tradicional, nem um roteiro no sentido clássico, feito de seções pré-ordenadas, com diálogos, etc, etc. Rodado em 35 milímetros preto e branco e em cores com uma minicâmera de vídeo digital, o filme, em caso de se exigir uma definição premente, seria um road movie sobre a inteligência à procura dos sentimentos mais profundos do ser humano.
Uma solitária e irônica voz no planeta, Jean-Luc Godard ainda está à procura, e ainda formula questões dolorosas sobre este mundo em falência. Luz e sombra, mentiras visíveis e verdades ocultas, história e religião, o nascimento do filme e as origens do mundo. Parece muito, parece pretensioso. Mas é só Godard pensando e exercitando seu cinema, solene, engraçado, melancólico e acima de tudo inteligente.


