São Paulo, 26 (AE) - Sam Raimi é o primeiro a admitir: o menino de ouro do horror, cultuado pela série "Uma Noite Alucinante", vira um diretor maduro (e ele chega a dizer sério) em "Um Plano Simples", que estréia amanhã (27). Raimi conversou pelo telefone com a reportagem da Agência Estado. Ele estava em Los Angeles, no estúdio de som da Universal, trabalhando em seu novo filme: "For the Love of the Game", com Kevin Costner. Concorda que "Um Plano Simples" é seu melhor filme. Mais ainda: acha que, realmente, o filme adaptado do livro de Scott B. Smith, com roteiro do próprio escritor (indicado para o Oscar), marca um novo começo de sua carreira.
É um estudo sobre a cobiça como raros o cinema apresentou nos últimos anos. Cinedramaturgia até certo ponto tradicional, centrada em poucos personagens: três homens, a mulher grávida de um deles. O trio encontra um avião encoberto pela neve. Dentro, um morto e uma mala cheia de dinheiro. Quatro milhões de dólares que poderão mudar a vida dessas três pessoas. Muda de um jeito completamente inesperado para eles: o trio desintegra-se e ainda é preciso enfrentar o criminoso que está no encalço da fortuna perdida.
A narrativa, densa, é centrada nos poucos personagens e na crescente tensão entre eles. Os homens simples, até mesmo simplórios, matam-se. O personagem de Bill Paxton, apresentado como um homem íntegro e correto, esteio da comunidade, faz coisas de que até ele duvida. É impulsionado pela mulher (Bridget Fonda). É uma lady Macbeth interiorana, sem a consciência trágica da personagem de Shakespeare. O desfecho é forte: uma amarga crônica de ilusões perdidas.
Raimi pegou o filme andando: "Era um projeto de John Boorman; quando ele desistiu, o estúdio procurou outro diretor e eu terminei assumindo". Ele destaca o que o atraiu no tema: "Foi a história, a motivação dos personagens; tudo era tão verdadeiro e bem fundamentado que eu comecei a imaginar essas pessoas; queria colocá-las na tela da mesma forma como as via". Um filme de atores: "Boorman havia selecionado Paxton e Billy Bob (Thornton); eu tinha ou não a opção de usá-los; seria um louco se os dispensasse, porque aderiram ao projeto com entusiasmo".
Não se trata de renegar seu passado como diretor de horror, mas Raimi tem autocrítica suficiente para saber como e de que forma evoluiu. "Nos filmes de horror, eu buscava ângulos bizarros para colocar a câmera e fazia um monte de cortes". Queria sacudir o público, provocar angústia e medo. "Eram filmes que chamavam a atenção para o trabalho do diretor, em que eu me exibia; deu certo, porque esses filmes criaram uma reputação para mim".
Ele chega a dizer que o terceiro filme da série "Uma Noite Alucinante" é resultado da sua admiração pelos "Três Patetas" e pelos irmãos Marx. "É um pastelão sanguinolento", define, muito influenciado pela estética do videoclipe. Tudo isso agora ficou para trás. Raimi vê como forma de amadurecimento pessoal o fato de não precisar mais chamar atenção. "Acho que finalmente aprendi a colocar a câmera no lugar certo, de forma a servir à história".
Não poupa elogios aos atores: "Bill Paxton é um ator que ainda precisa ser revalorizado, dentro da indústria; ele tem físico para ser um ator de ação, mas sabe captar as densidades e sutilezas de personagens mais complexos; Billy Bob é ainda melhor, conseguindo mudar, de um filme para outro". Outros elogios vão para o escritor: "Scott B. Smith escreveu o roteiro mais sólido sobre o qual já me foi dado trabalhar". Vida - O diretor conta como começou a interessar-se por cinema. Garoto, em Michigan, era vizinho de Bruce Campbell, que depois virou ator de "Uma Noite Alucinante". "A gente ganhava um dinheirinho limpando quintais, juntava a grana e fazia filmes em super-8". Ele sabe que ajudou a mudar a linguagem dos filmes de horror. Assume a influência da TV. "O público exposto à linguagem televisiva consegue aceitar edições muito rápidas de imagens". Insurge-se contra um estilo de cinema que ele próprio ajudou a criar. "Interessar-se por pessoas, mais do que por efeitos, é sinal de amadurecimento".

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