Um piano que se abre em Londrina
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segunda-feira, 06 de julho de 2009
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
Dividindo espaço em um palco cheio de objetos, sentado em uma cadeira, o pianista Marco Antônio Almeida tocou com as pontas dos dedos algumas teclas do piano à sua frente, as teclas chamaram outras, veio a melodia, um trecho de uma música, que se emendou a outra, e a outra, e parecia que as mãos não queriam parar nunca. Extasiado, ele inaugurava informalmente, na última sexta-feira, o piano Steinway & Sons que acabara de ser desencaixotado e montado no Teatro Ouro Verde. A inauguração oficial acontece durante o Festival de Música de Londrina (FML), que acontece de 11 a 25 de julho.
Marca tradicional (fundada em 1853) preferida dos grandes pianistas, o Steinway que chega à cidade é norte-americano, de cauda inteira, com 2,75 m de comprimento e 450 quilos. O novo instrumento veio em substituição a outro, adquirido em 2005 pela associação cultural Artis Colegium (pela lei Rouanet e patrocínio do Café Iguaçu e Petrobras) por R$ 360 mil - US$ 88 mil do piano mais outros custos, como de importação e seguro (o governo estadual isentou-o do ICMS).
Inaugurado por Nelson Freire, aquele piano apresentou problemas desde o princípio, e precisou ser devolvido. ''No início, esperávamos que ele 'abrisse', porque os pianos costumam amadurecer, como madeira viva, mas isso não aconteceu. Depois, percebemos rachaduras na tábua harmônica, e vimos que era impossível mantê-lo'', explica Irina Ratcheva, diretora da Artis Colegium.
Todos os trâmites de avaliação, devolução, escolha (um músico foi contratado especialmente para escolher o piano na própria Steinway & Sons, nos Estados Unidos) e reenvio do instrumento levaram cerca de três anos, o que justifica o entusiasmo de Almeida. ''Nós pianistas não trabalhamos com coisas eletrônicas. Nosso som é o som acústico que o piano tem. Então é necessário ter um piano que renda sonoramente. Com o Steinway, mesmo um som muito 'pianinho' corre até a última fila do teatro, e o forte não é metálico. A parte mecânica reage bem com os dedos, responde rapidamente'', avalia.
O músico garante que mesmo o público leigo também é capaz de sentir a diferença de sonoridade do instrumento fazendo um paralelo: mesmo quem não conhece nada de mecânica de carro sente a diferença ao dirigir um Fusca ou uma Ferrari. E o novo piano pode levar até a uma economia de dinheiro: segundo Almeida, que também é organizador do FML, no ano passado, o aluguel de um Steinway custou R$ 15 mil ao festival. ''É um grande ganho para Londrina. A cidade não tinha um piano à altura'', comenta. No Paraná, há apenas outros dois Steinway: na capela Santa Maria e no Teatro Guaíra, ambos em Curitiba.
Segundo a diretora da Artis Colegium, o piano vai ficar à disposição para ser utilizado em grandes eventos culturais. Irina planeja ainda promover algum concerto com o piano pós-FML. Mas a sua maior preocupação é para onde o instrumento vai quando o festival acabar. ''O piano ainda não tem uma casa, seu destino é incerto'', lamenta. Como a cidade ainda não tem um Teatro Municipal, pode ser que ele fique provisoriamente em alguma sala do teatro Marista ou do Colégio Mãe de Deus. ''Nossa preocupação é com a manutenção, a segurança. O piano não pode ficar onde tenha problemas estruturais'', justifica.
Fabricado para durar um século, o Steinway precisa de temperatura e grau de umidade adequados e constantes. ''Com grande umidade, seu feltro incha, se o clima é muito seco, a madeira estoura'', explica Almeida, acrescentando que cada piano desses tem personalidade e vida próprias. ''Nunca podemos brigar com o piano, ele sempre ganha a luta. Temos é que nos adaptar'', ensina.


