''Escrevo para mim mesmo'', define-se o escritor e jornalista carioca Carlos Heitor Cony. Ele esteve em Londrina na última segunda-feira para conversar com o público durante a primeira edição de ''Londrina, Literatura e Cidadania'', projeto coordenado pela Books Livraria. Aos 75 anos, Cony diz que se sente como um jovem ao ''falar uma besteira para dois milhões de ouvintes'', se referindo ao seu público na rádio CBN (Central Brasileira de Notícias), em que faz comentários diários ao lado de Artur Xexéo.
Foi a segunda visita a Londrina neste ano, e ele já se acostuma com a cidade. ''Uma vez cheguei a sonhar que estava morando em Londrina, acordei e sugeri a mudança para minha mulher. Ela não topou'', relembra. Assim como Oscar, protagonista de ''O Indigitado'' (seu último livro), o escritor parece em busca de um verdadeiro eu, algo que seja ele realmente. Às vezes pára, olha para o silêncio, e evoca um comentário longínquo, como se buscasse aquela tabacaria que Fernando Pessoa tanto frequentava.
Em entrevista à Folha2, Cony falou de sua aproximação com o personagem sem destino, da Academia Brasileira de Letras e de seu novo livro, ''A Tarde de sua Ausência'', que será lançado em março do próximo ano. O escritor, que conheceu gerações e gerações de escritores e jornalistas, se surpreendeu com o público que lotou o Teatro Zaqueu de Melo, a maioria formada por estudantes de jornalismo que o acompanham diariamente em sua coluna política na Folha de S.Paulo. Cony foi amigo de mestres como Otto Maria Carpeaux e Paulo Francis, o último dos grandes jornalistas do País, ''que sempre se adiantava sobre os meus romances'', relembra. Em alguns momentos, os olhos lacrimejando eram interrompidos por uma prosa balanceada, apontando erros no governo FHC e falhas e acertos na imprensa brasileira. Leia a seguir trechos da entrevista.

O Oscar, personagem principal de ''O Indigitado'', é um homem curioso. Ele não tem preocupações estéticas, políticas, nenhuma preocupação com a realidade. É um ser alheio ao mundo...
É verdade. Ele não tem profissão. Quando eu parti para os ciganos é porque eles não têm ideologia. Cigano é cigano. É uma raça própria, algo misterioso. Eu não tive tempo de me aprofundar muito na questão da cultura cigana, mas o livro é baseado nessa cultura, que tem suas características próprias. O judeu é melhor estruturado, tem princípio, meio e fim. Teve uma pátria, houve uma perseguição, passaram 2 mil anos na diáspora. O judaísmo é historicizado. A própria Bíblia é a história do povo judaico. Os ciganos não têm isso, são muito mais aleatórios. Eles apareceram ninguém sabe como. Andam de um lado para o outro, tem suas coisas secretas, como ler o destino, cartas, sorte, o artesanato. Mas o que predomina nos ciganos é o seu nomadismo, não ficam em lugar nenhum. E eles não gostam de trabalhar, apesar dos bens, é difícil você ver um cigano pobre. Aparecem e desaparecem, algo misterioso. É como o beduíno, que você vê no deserto e não sabe da onde veio. Estive no deserto de Israel e conheci um beduíno que ficava três dias no deserto e depois desaparecia. E não gostava de morar em casa, apenas em lonas. É algo fascinante. Mas eu não podia me aprofundar muito na questão do cigano se não eu faria um estudo antropológico, e não um romance que pode ser digerido.

O senhor já se sentiu como um indigitado no meio cultural brasileiro, acusado de algo que não fez?
Eu fui acusado e preso por seis vezes. Mas em todas as seis eu sabia o que eu tinha feito. Não fiquei naquela situação de que eu sou inocente, estou sendo perseguido. Onde eu talvez me identifique muito com o cigano é no nomadismo espiritual. Enquanto fisicamente sou muito fixo, sou muito árvore... se você me deixar aqui eu apodreço nessa cadeira. Agora... espiritualmente eu sou nômade. Não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar. Estou sempre rodando, não consigo ficar quieto. Essa inquietude minha espiritual me acompanha desde criança e é talvez o meu traço cigano mais evidente. No mais eu também tenho uns traços ciganos, uns dizem que eu tenho ascendência judaica, turca. E minhas namoradas, quando eu era mais jovem, todas elas me chamavam de cigano. Não sei por quê? Talvez porque cigano velho não existe... (risos)

O senhor vê novos autores na literatura brasileira?
Os novos autores estão aparecendo todo dia. Os editores se queixam, mas recebem praticamente uma média de cinco, seis originais por semana. O problema no Brasil é que há mais editoras do que livrarias. Para se ter uma idéia, o problema do livro passa por quatro fases. Primeiro, a edição. É o mais fácil de ser vencido, porque você pode encontrar uma editora grande ou pequena, ou você mesmo pode editar o seu livro. Com 4 ou 5 mil reais você pode publicar uma edição modesta com mil exemplares, capa com duas cores. Depois vem o problema da distribuição, pois o livro precisa ser transportado. A distribuição é dura. Daí vem a exposição. O livro precisa ser exposto, e uma livraria nunca tem espaço para expor toda a produção. O livro sai e no fim de um mês é substituído por outro nas prateleiras. O quarto e último problema é a divulgação. Se você publica em uma grande editora, ela tem condições de fazer uma divulgação razoável. Tem mailing (lista de endereços), manda para outros escritores, para os jornalistas, ajuda muito.

O senhor é membro da Academia Brasileira de Letras. Como o senhor vê a disputa pela vaga de Jorge Amado? O jornalista Joel Silveira chegou até a ofender a escritora Zélia Gattai, outra candidata.
Eu sou amigo dos dois. Sou amigo do Jorge Amado, grande amigo meu por muitos anos, e evidentemente a Zélia fazia parte do pacote. O Joel foi meu companheiro de prisão quatro vezes e tenho muita estima por ele. Agora o Joel ficou irritado. Era um candidato forte, com muita chance, mas ele saiu atirando. Não era hora do Joel fazer os tiros que ele fez agora. Ou seja de desprestigiar o Jorge Amado e atacar a Zélia, chamando ela de tampinha. ''Não sei o que o Jorge viu nessa mulher''. Isso pegou mal, porque a tendência da Academia, quando há disputa, é de haver um certo respeito pelos candidatos. E ele entrou atirando. Isso fez com que muita gente que ia votar no Joel desistisse.

O senhor frequenta a Academia?
Frequento. Quando eu estou no Rio, vou duas vezes por semana. E eventualmente tem um ciclo de palestras, conferências. Faço palestras, ouço palestras.

E como está o projeto biográfico do escritor José Lins do Rego?
Esse projeto, com a minha entrada na Academia, ficou difícil de conciliar. Eu ia ter de ficar uns três ou quatro meses só por conta dele. E eu não tenho tempo, não estou vendo tempo para poder fazer isso. Ia ter de parar, ir para Paraíba, ficar um mês lá. Depois outro mês e meio só estudando José Lins do Rego, teria de me licenciar da Folha (Folha de S.Paulo); e a Folha não dá licença assim fácil... mas um dia, quando eu puder, eu farei.

E no campo da ficção, o senhor tem algum novo projeto?
Quando eu estava fazendo esse trabalho para a (Editora) Objetiva, ''O Indigitado'', o meu editor da Companhia das Letras me pediu um livro para outubro, pois a editora vai fazer quinze anos e não tem nada para lançar. O Saramago ia dar um livro e não pôde dar... teve um problema. O Luís Schwartz, que é o editor disse: minha salvação é você, você faz o livro. E eu fiz. Basicamente fiz dois livros ao mesmo tempo, em fevereiro e março desse ano. Depois que eu entreguei o livro é que eu pensei, estou cometendo um erro de lançar dois livros ao mesmo tempo. E dois romances! O mercado não é tão assim, ninguém está de joelhos pedindo livros. Então irei lançar o novo livro, ''A Tarde de sua Ausência'', em março ou abril de 2002, perto da Bienal.

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