Um personagem complicado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de julho de 2002
Renata Petrocelli<br> TV Press 
O ator Caio Blat é o extremo oposto de seu personagem, o instável Mateus, de ''Coração de Estudante''. Enquanto Caio, aos 22 anos, se sente ''completamente realizado'' com trabalho, família e casamento, Mateus sofre por uma paixão não correspondida, tem grandes conflitos com a mãe e parece pouco preocupado com o futuro profissional. Deslocado entre os outros jovens da trama, seus sentimentos oscilam entre o desprezo e a inveja. ''Ele acha que os caras são uns filhinhos de papai, mas gostaria de estar entre eles, de morar sozinho, de aprender alguma coisa'', analisa Caio, aliviado por vivenciar ''apenas'' na ficção sentimentos tão pouco nobres.
Antes de ''construir'' Mateus, o ator conversou muito com Emanuel Jacobina, autor da trama, que o ajudou a entender a personalidade do imprevisível rapaz. Extremamente sensível, ele se torna amargo ao perder o amor de Rafaela, personagem de Júlia Feldens, e passa a se comportar de modo ácido e explosivo. ''Às vezes ele fala as coisas mais horríveis sorrindo, outras vezes fica nervoso com uma simples besteira'', descreve o ator, divertindo-se com a falta de equilíbrio de Mateus.
Caio não esconde, no entanto, que o maior encanto que vê no trabalho é algo bem próximo de seu momento pessoal: o sentimento ''família'' da novela. ''Eu gosto muito do tom do Jacobina, de retratar a família, o interior, mostrar a música brasileira'', derrama-se. Foi pensando na própria família que o ator impôs uma condição ao aceitar o personagem, adiando pela segunda vez suas férias. Casado há pouco mais de um ano com a cantora Ana Ariel, ele queria continuar morando em São Paulo, onde os dois desenvolvem um trabalho voluntário com crianças carentes.
Com o ritmo intenso das gravações, Caio chega a enfrentar cada trecho da ponte-aérea oito vezes por semana. Mas acha que o esforço compensa. E, de fato, mostra um semblante sereno, sem qualquer sinal daquele estresse comum aos executivos que voam entre Rio e São Paulo. ''Às vezes vou a São Paulo para dormir e volto no dia seguinte'', conta com um sorriso nos lábios, lembrando que tem gravado tanto quanto em 2001, quando interpretava o protagonista de ''Um Anjo Caiu do Céu''.
Além do trabalho na novela, Caio acabou de filmar o longa ''Carandiru'', de Hector Babenco, no papel de um homem correto que é forçado a entrar no mundo do crime. Baseado no livro do Dr. Dráuzio Varella, o filme mostra histórias e personagens reais e foi rodado no próprio presídio. ''Só de entrar lá você fica com a pele arrepiada, o coração batendo forte, os olhos cheios de água'', enumera o ator.
No teatro, o trabalho de Caio não é mais leve. Ele fez a supervisão de pesquisa da peça ''Êxtase'', de Walcyr Carrasco, que terminou temporada no Rio de Janeiro e segue excursionando pelo país. A peça aborda o universo das drogas e iniciou carreira em espaços alternativos, como a favela do Vidigal, na Zona Sul do Rio, para onde o ator chegou a se mudar em 2001.
Personagens como esses, do submundo brasileiro, não assustam o ator, que já tem 14 anos de carreira. Ainda criança, ele participava de comerciais quando foi convidado a integrar o elenco do seriado ''Mundo da Lua'', da TV Cultura em 1991, onde contracenou com Antônio Fagundes e Gianfrancesco Guarnieri. A primeira novela foi ''Éramos Seis'', do SBT, em 1994, emissora na qual atuou também em ''As Pupilas do Senhor Reitor'', em 95, e ''Fascinação'', em 97. Na Globo, fez a minissérie ''Chiquinha Gonzaga'', em 98, e as novelas ''Andando nas Nuvens'', de 99, e ''Esplendor'', de 200, antes de protagonizar ''Um Anjo Caiu do Céu'', 2001.
Com um currículo tão extenso na tevê, o ator já consegue pensar nos próprios projetos. Aos 19 anos, ele produziu, dirigiu e adaptou a peça ''Macário'', baseada na poesia de Álvares de Azevedo. O espetáculo ficou três anos em cartaz e deixou Caio com água na boca por novos sonhos. ''Os jovens pensam que ser artista é aparecer na Globo. Não é só isso. É nosso papel trazer coisas novas, levantar algumas bandeiras'', defende. Para o futuro, Caio pensa em adaptar para o teatro algumas ''histórias de amor e doação'', como a vida de São Francisco de Assis.


