Geralmente, tudo que é pequeno é realmente pequeno. Mas isso não pode ser considerado um regra exata pelo simples fato de que, aquilo que é pequeno, pode apenas parecer pequeno. Tudo aquilo que é grande pode realmente ser grande como pode apenas parecer grande.
Do mesmo modo, o amor pode ser considerado uma eterna certeza que comporta a dúvida e, ao mesmo tempo, uma eterna dúvida que comporta a certeza. O amor entre duas pessoas parece sempre passar por uma série de distorções, como se o ar que separa os corpos atuasse como uma espécie de filtro. Um filtro difusor e unificador ao mesmo tempo. Certeza e dúvida.
Estes princípios banham como brisa as histórias do escritor norte-americano Jim Harrison. Narra como se fosse um vento leve e constante movimentando certezas e dúvidas. Leva em conta a vida como um conjunto de acontecimentos e sentimentos vividos. Com subjetividade, trata a vida não como unidade mas como plural.
Seu romance ‘‘O Feiticeiro’’ (Warlock) lançado pela Editora Companhia das Letras não foge a esta peculiaridade. Publicado originalmente em 1981, o livro narra a história de Johnny, 42 anos, executivo de vendas. Desempregado, passa o dia cozinhando para a mulher, uma enfermeira cirúrgica. Todos os dias passeia pelo lago próximo, visita a mercearia, compra alguma coisa e passa o resto do tempo pensando em duas coisas: fazer sexo com a esposa e qual receita escolherá para o jantar.
Com tempo ocioso, a mente de Johnny passa a se ocupar com reflexões e distrações. Pensar numa única folha sendo levada pelo vento sendo que há milhões delas e em seguida pensar na banalidade de existir para apreciar uma folha sendo levada pelo vento: ‘‘Em que ponto mudar o futuro se confunde com a própria eternidade? A morte? Em vez de se assustar, voltou à segurança da cozinha, para uma lista de compras muito necessária e um bom copo de borgonha barato mas adequado. Pão. Batatas. Morte. Suco de Laranja. Eternidade. Detergente. Sonhos. Alho. Parou um pouco antes de imaginar seu funeral.’’
Neste cotidiano é abraçado pela depressão. Depois de passar maus bocados e secar bares, resolve mudar sua vida, de dentro para fora. Tal fato coincide com uma oportunidade de emprego. Agarra-se às duas coisas como carrapato num cavalo.
Com o apelido de feiticeiro - recebido quando era escoteiro na infância -, Johnny passa a trabalhar como detetive particular para um médico, inventor milionário que deseja saber se a ex-mulher e o filho estão dilapidando sua fortuna. Como detetive de primeira viagem, passa por uma série e enrascadas até que descobre que o médico deu-lhe tal emprego, no qual precisa empreender longas viagens, com o objetivo de, na sua ausência, seduzir sua esposa.
‘‘O Feiticeiro’’ pode parecer uma amena comédia, mas na verdade é uma comédia tirando as peças de sua vestimenta para se apresentar nua, como tragédia. O âmago da história está na relação entre marido e mulher - ou entre dois seres que se amam, ou tentam se amar, ou pensam que se amam. A dúvida como componente do amor.
Se por um lado o amor pode existir, de maneira real, sem o contato corporal, o amor sexual não consegue sobreviver sem contato. Se por uma lado a sexualidade sente as fantasias que tece, o amor realiza o caminho oposto, ele vive a linha que poderá tecer as fantasias. Nada muito claro e definido. Entre a certeza e a dúvida, o erro.
Erra-se porque leva-se sempre em conta, em tal ato, a possibilidade de perdão, a possibilidade de fuga das consequências do erro. Talvez, haja neste procedimento uma herança do conceito religioso de que tudo será perdoado apenas com o simples reconhecimento dos erros cometidos, ou mesmo pecados.
Cada amante, cada amado, pode ter dúvida de seus sentimento e certeza de seus atos. Do mesmo modo, pode ter certeza de seus sentimentos e dúvidas de seus atos. O mais provável é que tenha dúvida de ambos. O amor não é exato.
Como toda a literatura de Jim Harrison, a natureza selvagem do meio-oeste norte-americano é cenário constante. A terra e seus habitantes, homens e animais são presença obrigatória. Além da constante presença de comida e bebida. Em seus livros há uma vasta culinária e alto consumo de álcool. Sempre há algum personagem cozinhando, comendo, bebendo, ou mesmo pensando em cozinhar, pensando em comer e beber.
Apesar da sutileza, ‘‘O Feiticeiro’’, não se apresenta como a grande obra de Jim Harrison - várias delas transformadas em filme. Embora seja uma narrativa que cultue a suavidade, não possui o grau poético de romances como ‘‘Dalva’’ (Editora 34, 1995) e novelas como ‘‘O Homem Que Desistiu de Seu Nome’’ (Editora 34, 1996) e ‘‘Lendas do Outono’’ (Editora 34, 1993).

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