UM PEIXE NA RIBALTA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de janeiro de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
A atriz Silvanah Santos confessa que não é muito ligada às artes culinárias. Prefere o palco à pia, fogão e panelas, mas alguns pratos gosto de fazer; desde que bem específicos e em momentos especiais. Para esta página da Folha 2 escolheu uma receita de posta de cação, batizada por ela de Quinhentas Vozes, que é o título do espetáculo em vias de ser produzido. Silvanah vai viver mulheres intensas, apaixonadas em seus encontros e desencontros e todas elas cozinham.
Não está no texto que sejam boas cozinheiras, mas são pessoas simples, que existem por aí, todas elas anônimas, explica a atriz. Naturalmente, cada qual deve ter um prato para os dias mais importantes, imagina a artista. Este Quinhentas Vozes, afirma ela, é o preferido de uma dona-de-casa que se confessa atriz. Sou atriz, você é que não sabe, diz a personagem em silêncio, ao marido que segue seus passos, quase medroso.
Essa mulher é meio bruxa, e não sei porque ela é a dona deste prato. Poderia até citar outros, feitos pelas demais que estão no espetáculo, mas só poderia ser a atriz para montar esta receita, afirma Silvanah. É simples de fazer; é um cação gratinado.
Ela conta que descobriu o prato ao ouvir um comentário da avó. Foi na minha adolescência, numa idade em que a gente quer aprender tudo. E eu não dei mais sossego para minha avó, enquanto ela não me ensinou a fazer. De vez em quando vou à cozinha até para homenageá-la.
Para a atriz, a culinária e a representação teatral são áreas que se aproximam na sua essência. Na comida você transfere um pouco daquilo que é seu e oferece às pessoas; na obra artística você também põe coisas suas. Tanto é que uma determinada personagem pode ser feita por vários atores e cada um vai pôr algo de si, e cada interpretação será diferente da outra. Na comida você põe algo que é seu de modo diferenciado; com a mesma receita, ela será parecida mas não exatamente igual como se outra pessoa fizesse.
Trabalhando profissionalmente há 11 anos, foi uma das fundadoras do grupo Satyros, que existe há dez anos e desenvolveu sua carreira durante quase sete anos na Europa. Estar aqui é bom, mas as portas dos países por onde passou continuam abertas, frisa a artista. Dos tempos que passou fora, marcou especialmente a saudade pela comida e música. São duas características brasileiras muito fortes, apreciadas, respeitadas.
Para nós, brasileiros, era muito engraçado, porque a comida é muito cara. Os condimentos são importados, sai caro. Na Ucrânia tentamos fazer uma feijoada e foi uma missão quase impossível. Os produtos eram bons, mas faltava a nossa essência. Por isso que comida é tão específica dos povos; é um dos signos fortes da cultura de cada povo.
Vivendo o que chama de um processo criativo para seu próximo trabalho, Silvanah transpira as diversas mulheres que vai encarnar em cena. A gente trata da feminilidade não no sentido enquanto feminismo, mas no sentido da mulher enquanto quase conta a história dela. É uma viagem sobre essas vidas, um mergulho no universo que retrata a condição feminina.
São grandes mulheres e estou aprendendo muito com elas, inclusive o gosto pela cozinha, continua. Porque elas mexem com cebolinha, cheiro verde, fazem bolo de fubá. Tudo isso está nos textos, e de certa forma estão me influenciando a olhar as panelas com mais simpatia, diverte-se.


