Um patrimônio musical
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quarta-feira, 12 de março de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Mario CesarGilson Corsaletti (na bateria) e alunos do Conservatório Musical de LondrinaUm mais um são dois. Dois mais dois são vários. E vários, consequentemente, formam um grupo. E é nessa lógica matemática que o Conservatório Musical de Londrina, o mais antigo da cidade, está se preparando para oferecer a integração de cursos que pretendem estimular a formação de grupos musicais. A idéia deve ser colocada em prática no final deste mês e vai abranger alunos dos cursos populares de violão, sax, piano, bateria, guitarra e teclado. O repertório vai abranger músicas da Bossa Nova, MPB, Jazz, rock e de filmes. Se houver procura e interesse, poderão ser formadas turmas voltadas para a música erudita.
O curso é opcional, mas certamente vai despertar o interesse de muitos alunos. Não vamos obrigar ninguém a fazê-lo, mas vamos fazer com que os professores imputem a idéia nos alunos- diz Silvia Maria de Lemos Baptista, diretora administrativa do Conservatório Musical de Londrina. Pelo jeito, não deve haver muita resistência por parte dos alunos. Afinal, pressupõe-se que sempre há uma intenção maior por trás de alguém que aprende a tocar um instrumento. Todo mundo gosta de se apresentar- resume Gilson Corsaletti, professor de bateria.
O nível técnico de cada aluno, claro, será aferido pelos respectivos professores. Com o repertório devidamente dominado, os alunos passarão mensalmente por um ensaio geral num espaço definido pelo conservatório. A princípio, serão realizadas apenas audições internas sob orientação de todos os professores.
A meta é, no final do ano, realizar uma grande apresentação. Daí, é torcer para que surjam novos grupos musicais. Uma coisa é certa: cada aluno terá pelo menos uma boa noção da importância da vivência musical em grupo. Essa integração vai propiciar um desenvolvimento maior de sua capacidade de relacionamento social e musical, além de ensiná-lo a dominar a ansiedade de enfrentar um público- diz Gilson Corsaletti.
Lá embaixoPara contar a história do Conservatório Musical de Londrina é preciso retroceder no tempo para entender o motivo de sua longevidade - em setembro, mais precisamente no dia 9, a escola completa 44 anos de existência. Trata-se, também, de um pedaço da história da cidade.
Foi assim: as professoras Betty Veiga e Lidia Costa Branco começaram a perceber o crescente número de alunas em suas aulas de piano. Eram, principalmente, filhas de fazendeiros da região, cujos bolsos não tinham profundidade. Naquela época, era costume as meninas fazerem escola normal, música e se casar de preferência com um funcionário do Banco do Brasil- relembra Silvia Maria de Lemos Baptista.
A idéia de se abrir um conservatório partiu do médico Carlos da Costa Branco, que estimulou a esposa, Lidia, e a amiga Betty Veiga. Porém, temia-se que não haveria alunos suficientes para que a idéia vingasse. O grande teste foi feito numa reportagem publicada na Folha de Londrina. O retorno foi o melhor possível. Isso aconteceu em 1952.
No ano seguinte, o Conservatório conseguia, junto à Secretaria Estadual de Educação, o registro sob número 326. Estava oficialmente instalado o primeiro conservatório musical da cidade que, por uma questão de coerência, recebeu o nome de Londrina. A princípio, a escola funcionou onde hoje é o Centro de Saúde, em frente ao Edifício Júlio Fuganti.
Meses depois, o conservatório se transferiu para a Rua Pernambuco, onde funciona até hoje. Ficava um tanto quanto distante do - se é que naquela época já existia - centro da cidade. As pessoas costumavam dizer que o conservatório ficava lá embaixo, na Rua Pernambuco- lembra Silvia Baptista. O imóvel, porém, era adequado para a finalidade já que os dois tijolos e meio de parede permitiam (e ainda permitem) uma acústica excelente.
O lá embaixo a que Sílvia se refere se resumia a poucas casas e ruas que se tornavam lamacentas com meia dúzia de pingos de chuva. Nesses dias para entrar no conservatório, à porta, uma raspadeira de ferro (também chamada na época de chora-paulista) para arrancar o barro dos sapatos dos visitantes.
Alguns metros abaixo, havia outro ponto bastante badalado da cidade: o Frigorífico Rezende, onde hoje funciona o polivalente Ginásio de Esportes (e de shows e de reuniões religiosas) Moringão. Naquela região, a rotina era embalada por acordes musicais.
Um certo JoãoNo início, o Conservatório Musical de Londrina era fundamentado exclusivamente na música erudita. O piano era o seu forte. Em 54, a concertista Ruth Lemos assumia a direção administrativa da escola. O cargo lhe foi passado depois que ela, uma concertista de São Paulo, veio a Londrina para uma apresentação na cidade. Ficou por aqui. E foi também a responsável pela implantação do método da imensa Magdalena Tagliaferro, de quem foi aluna.
Nessa altura dos acontecimentos, o conservatório já ministrava também cursos de violino e acordeon. Clássicos, diga-se de passagem. Mas um certo João Gilberto - ma-ra-vi-lho-so - com seu jeito de tocar violão e implantar uma nova bossa fez com que, no início da década de 60, o conservatório se abrisse ao violão popular. A rapaziada queria aprender a tocar daquele jeito.
E coube ao professor Romeu, um canhoto, a ensinar a batida e as músicas da Bossa Nova aos alunos. Foi uma revolução na época. Algumas pessoas achavam uma aberração ter violão popular num conservatório. Achavam que era, como se chama hoje, brega- conta Silvia Baptista.
Entretanto, só alguns anos depois é que a música popular passou realmente a ter espaço certo como dois e dois são quatro. Antes disso, o conservatório ganhou notoriedade e respeito ao organizar a Semana da Música que se realizou de 60 a 70. Só não foi realizado em 64 porque era terminantemente proibida a concentração de várias pessoas num mesmo local. Coisas da ditadura e de seus dirigentes imbecis e incultos.
Pode-se dizer que a Semana da Música foi a precursora do hoje badalado e prestigiado Festival de Música. Para cá vieram uma constelação incrível formada, entre outros, por Magdalena Tagliaferro, Caio Pagano, Arnaldo Rebello, Eudoxia de Barros, Henriqueta Penido, João Carlos Martins e Gilberto Thinetti.
O forfait musical movimentava a cidade. E toda a cidade ia. É que aquele caixote que cospe imagens, também chamado de televisão, ainda não havia enfeitiçado pra valer a população da então pacata Londrina. As atividades sociais e culturais da cidade giravam em torno da Semana- confirma Silvia.
Claro, o conservatório também sentiu na pele as dificuldades econômicas do nosso Brasil varonil. Mas manteve-se em pé. Hoje, além do piano clássico e popular (com ênfase ao piano clássico que em outras épocas era o carro-chefe), oferece aulas de teclado, órgão eletrônico, violão, guitarra, contrabaixo elétrico, saxofone, violino e bateria e técnica vocal.
Além disso, são ministrados cursos de musicalização infantil subdividida em grupos que vão dos sete meses aos três anos; dos três aos cinco anos; dos seis aos oito anos; e dos oito aos dez anos. A diretora administrativa, entretanto, não faz idéia de quantas alunos passaram e/ou se formaram no conservatório. Mas de uma coisa ela não tem dúvida: as paredes daquela casa, hoje localizada na Rua Pernambuco 903, estão impregnadas de cultura e história.


