Nelson Sato
De Londrina
Foram anos, mais de duas décadas com a mesma meia dúzia de artistas sentada no cetro da MPB. Muito se falou de medalhões, estagnação e mais recentemente de máfia do dendê. Mas desde o surgimento de Chico Science, a opção radical pela contemporaneidade não só tem trazido novos nomes à cena como deixado os antigos comendo poeira com seus violões já quase enferrujados.
Não há porém nenhum confronto de gerações. Pelo contrário, o clima geral é de ecumenismo triunfante. Com o lançamento do CD Na Pressão(BMG), o cantor e compositor Lenine dispara na dianteira da tendência acentuando as diferenças entre uns e outros. Ao lado de Otto, parece formular uma linguagem musical inédita para a música popular brasileira.
Como sempre, dar cabo da equação tradição-modernidade continua sendo o estímulo para os criadores de ponta. Vale notar que os três nomes citados são de Pernambuco. Se Chico morreu sem ter tido tempo de concretizar as conexões dos ritmos regionais com o pop eletrônico, os outros dois são os que melhor definiram uma síntese.
Mas Lenine evita teorizar. ‘‘Quem pilota meu trabalho é a intuição’’, disse ele, em entrevista por telefone de sua casa no Rio. ‘‘Não decupo o que faço. Nunca parei para pensar: eu vou fazer um cyberpunk sertanejo, eu vou fazer um maracatu cibernético. É tudo intuitivo, orgânico, vomitado. Só depois do disco concluído é que vou conceituar.’’
Na Pressão leva adiante as inquietações contidas em O Dia em que Faremos Contato, o belo álbum de dois anos atrás que o transformou na ‘‘revelação’’ da temporada e que por sua vez já era uma evolução do álbum cult Olho de Peixe, gravado em 93 em parceria com o percussionista Marcos Suzano.
Lenine diz que o CD anterior foi ‘‘de descoberta’’. ‘‘Era um trabalho multifacetado, cheio de ruídos e uma carga grande de informações. Você tinha que ouvir duas a três vezes para perceber novos elementos em cada faixa. O Na Pressão está mais enxuto, com mais pausas, mais próximo do Olho de Peixe. É um trabalho de síntese.’’
Lenine lembra que o novo repertório foi feito na última hora, quando os prazos para gravá-lo estavam se expirando. Na verdade, ele tinha esboçado um disco que se chamaria Falange Canibal com composições antigas armazenadas há três anos. O material reunia cerca de 20 e poucas canções. Pensava em apresentá-las como uma maneira de atualizar suas relíquias de arquivo.
‘‘Queria mostrar minha evolução como criador, já que faço parte de uma geração que não teve possibilidades de documentar toda a obra’’ – conta. No finalzinho do segundo tempo, porém, desistiu da idéia ao se dar conta da temporalidade das canções. ‘‘Há muito de relação passional em cada canção’’ – salienta.
‘‘Cada música tem seu cheiro, suas cores, pessoas, todo um fato gerador. Por isso resolvi deixar pra lá. E isso foi bom. A pressão para trabalhar rápido me deu pilha para falar de questões mais atuais, reforçando o meu propósito de ser um cronista, um espelho do que me cerca.’’ Assim, do material rejeitado, ele aproveitou apenas três canções.
A primeira, ‘‘Jack Soul Brasileiro’’, tinha quatro anos na gaveta. Foi gravada por Fernanda Abreu e pelo próprio autor no recém-lançado tributo a Jackson do Pandeiro. A segunda, ‘‘Medida da Paixão’’, amargava 5 anos na reserva. ‘‘Relampiano’’, por fim, era uma parceria antiga com Paulinho Moska, que a registrou em seu álbum de estréia em 96.
Na Pressão é repleto de convidados, alguns virtuais – Jackson do Pandeiro e a Banda de Pífaros de Caruaru comparecem em samples respectivamente na já citada ‘‘Jack Soul Brasileiro’’ e em ‘‘Rua da Passagem (Trânsito)’’. Outras faixas trazem colaborações de Naná Vasconcellos, Dominguinhos, Pedro Luis e a Parede, Davi Moraes, os ‘‘raimundos’’ Digão e Rodolfo e o sempre presente parceiro Marcos Suzano.
Lenine observa que seu processo de composição – bem como de todo artista – é solitário, mas ao ser levado para o estúdio ‘‘passa a ser solidário’’. ‘‘Torno-me um fio condutor de muitas informações que vêm das pessoas envolvidas no disco’’ – diz. No caso em questão, o resultado desses encontros é arrebatador. Na Pressão traz uma sonoridade encorpada, com texturas e timbres ressaltando a mão do produtor roqueiro Tom Capone.
A exemplo de Otto, Lenine se abre para o som que anima as pistas de dança recheando o álbum com batidas de drum’n’bass, trip hop e big beat. O esqueleto das composições, todavia, não esconde a matriz nordestina. A combinação de percussão acústica e eletrônica surge como um trunfo na maioria das faixas. O compositor chega a surpreender como intérprete em ‘‘A Medida da Paixão’’ – aqui, será inevitável para alguns imaginar Nana Caymmi cantando no lugar de Lenine, seja pela melodia e arranjo ou pela inflexão imposta à performance vocal.
A veia lírica também se faz presente em ‘‘Paciência’’, a grande faixa do disco: ‘‘Mesmo quando tudo pede / Um pouco mais de calma / Até quando o corpo pede / Um pouco mais de alma / A vida não pára’’. Ruídos indecifráveis, loops de percussão e uma guitarra funkeada mesclam-se na djavanesca ‘‘A Rede’’ em outro momento alto do CD.
A turnê de lançamento está prevista para o mês que vem. Lenine vai tocar em algumas capitais e depois viajar para a Europa. Até lá, prepara a reedição de Olho de Peixe para as próximas semanas pelo seu selo Mameluco. Há ainda o projeto ‘‘os quatro no Palco’’, do SESC de São Paulo, pelo qual tem feito shows ao lado de Arnaldo Antunes, Pedro Luís e Toni Garrido.O cantor e compositor Lenine está lançando ‘‘Na Pressão’’, disco com influências de drum’n’bass, trip hop e big beat
DivulgaçãoLenine: ‘‘Torno-me um fio condutor de muitas informações que vêm das pessoas envolvidas no disco’’

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