O esqueleto de uma baleia e animais empalhados podem parecer contrários à idéia de preservação da vida. Como peças do Museu de Pesca de Santos (SP), funcionam como vitrine das pesquisas e tecnologias elaboradas pelo Instituto de Pesca nas áreas de pesca e aquicultura. Ao abordar a ecologia marinha, o museu orienta a comunidade nos moldes da educação ambiental, ressaltando as relações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente, por meio de conceitos de interligação do nosso dia a dia.
Inaugurado em 1909, para instalação da Escola de Aprendizes de Marinheiro, o prédio do Museu de Pesca foi erguido em terreno que anteriormente fora área do Forte Augusto, que cruzava fogo com a Fortaleza da Barra. Em 1931, a antiga escola cedeu lugar à Escola de Pesca do Instituto de Pesca, cujo gabinete de História Natural acabou se transformando em Museu de Pesca, com a chegada do esqueleto da baleia. Fechado em 1987 por causa das más condições do edifício, foi reinaugurado em 29 de junho de 1998, Dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores.
As obras de restauro valorizaram a arquitetura eclética. O edifício tem janelas de arco pleno no térreo e arco abatido no andar superior. O bloco central destacado com sacada e portas duplas centrais, arrematadas por arco e cornija curva apresenta frontão triangular ladeado por grifos (animais fantásticos). O caráter militar do prédio é marcado pelas ameias e platibandas.
Com 23 metros de comprimento e quase três metros de altura, o esqueleto de baleia é o marco da sala dos Grandes Mamíferos Marinhos, cuja temática aborda a situação atual de baleias, leões-marinhos, lobos-marinhos, lontras-marinhas, golfinhos e focas. Crânios e esqueletos de mamíferos marinhos mostram a semelhança com a estrutura óssea dos humanos, evidenciada na coluna vertebral e nas nadadeiras, que até parecem mãos. A área também apresenta o trabalho do Cema-Centro de Estudos sobre Encalhe de Mamíferos Marinhos.
A baleia encalhou e morreu em Peruíbe (SP), em 1941. Em plena época da Segunda Guerra Mundial, o cetáceo assustou os moradores ao ser confundido com um submarino da Alemanha, país que costumava ''visitar'' o litoral brasileiro com seus navios. Depois de solucionado o mistério, foi um custo levar a ossada até a praia. A tarefa contou com a ajuda da maré e de cordas, amarradas nos chifres de bois. Como o animal já começara a ser descarnado pelos peixes, sabe-se que o cheiro durou meses, o que causou protestos da população.
Consumidora primária, a baleia nutre-se de plâncton e não é predadora, ao contrário do tubarão. Este ocupa o ápice da pirâmide da cadeia alimentar porque come peixes e tartarugas, que se nutrem de outros peixes e crustáceos, que comem moluscos, que se alimentam de algas, que se nutrem de plâncton. Para subsistir, este realiza a fotossíntese, usando a energia do sol para a produção de alimento. Daí o cuidado do museu em conscientizar crianças e adultos sobre o perigo de jogar lixo na praia, em ruas e canais, já que os resíduos podem acabar no fundo do mar, sendo ingeridos pelos animais e prejudicando o equilíbrio da cadeia alimentar.
Essa dinâmica é representada pela Sala de Peixes Cartilaginosos, animais cujo esqueleto não é formado por ossos, e sim por um tecido elástico semelhante ao da orelha humana. A sala expõe raias ao lado de tubarões anequim, raposa, baía, tigre, touro, mangona, lixa e anão. De tão pequeno, este último mais parece uma sardinha.
Uma rêmola presa ao corpo de um tubarão ressalta as associações ecológicas. A rêmola é nutrida pelas sobras que caem da boca do temido peixe. Apesar do temor, apenas cinco, das 370 espécies de tubarão existentes, são perigosas. No Hall das Tartarugas, quatro delas ilustram, ao lado de painéis, o Projeto Tamar, programa nacional de preservação da espécie instalado no litoral baiano.
Para evitar o desaparecimento das espécies o museu indica a aquicultura - criação de animais e plantas aquáticas como caminho para o futuro da pesca. Expostas em painéis, criações de mexilhões e algas em Ubatuba, de rãs-touros e camarões-da-malásia em Pindamonhangaba, e de tilápias em Votuporanga, dão idéia do processo. Além de evitar o desequilíbrio causado pela pesca desordenada e predatória, a aquicultura tem a vantagem de produzir um estoque pesqueiro muito utilizado ultimamente na nutrição humana e em atrações como o pesque e pague.
A pesca artesanal também é valorizada pelo instituto, já que não interfere na ecologia marinha. Armadilhas como o manzuá, o cerco flutuante e o cerco vivo, confeccionados com rede e bambu ou madeira, ao lado de uma canoa de tronco cavado são técnicas caiçaras registradas no museu.

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