Analisar o homem como um animal, um símio habitante do planeta Terra, é a tarefa escolhida pelo zoólogo inglês Desmond Morris. Uma tarefa não muito comum, já que normalmente o ser humano é colocado à parte do mundo animal, colocado na redoma de vidro do raciocínio: ‘‘Nós, seres humanos, somos animais. Umas vezes somos monstruosos, outras imponentes, mas sempre animais. Preferimos pensar em nós próprios como anjos que caíram do céu, mas a verdade é que não passamos de macacos que se puseram de p钒.
A síntese do trabalho de Desmond Morris está no livro ‘‘O Animal Humano - Uma Perspectiva Pessoal da Espécie Humana’’, publicado pela Editora Gradiva. O livro foi escrito para acompanhar uma série televisiva de seis episódios realizada pela Unidade de História Natural da BBC em 1995.
Desmond Morris ficou conhecido mundialmente com a publicação na década de 60 do livro ‘‘O Macaco Nu’’. Na obra, realizava uma abordagem do ser humano através do ponto de vista zoológico, analisava o homem como um animal, um símio. Começava o livro da seguinte forma: ‘‘Existem atualmente 193 espécies vivas de macacos e símios. 192 têm o corpo coberto de pêlos. A única exceção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo Sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais.
O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que tem igualmente o maior pênis, preferindo atribuir erradamente tal honra ao poderoso gorila. Trata-se de um símio com enorme qualidades vocais, agudo sentido de exploração e grande tendência a procriar, e já é mais do que tempo de examinarmos o seu comportamento básico’’.
Ao tratar o homem do ponto de vista zoológico, um polêmica caiu sobre o livro. Religiosos, puritanos, psicólogos, antropólogos e sociólogos argumentavam que o autor estava degradando a humanidade, levando o ser humano à categoria repugnante de animal. Sua resposta: ‘‘Quando escrevia sobre peixes, aves ou cobras, ninguém se incomodava. Quando, porém, escrevi da mesma forma sobre pessoas, o teto caiu. É claro que o cérebro aumentado da humanidade fez-lhe inchar a cabeça’’.
Cada capítulo de ‘‘O Animal Humano’’ corresponde a um livro específico de Morris. Suas idéias são apresentadas de maneira objetiva pontuadas com fotografias. Sua abordagem procura ver a espécie humana como mais uma forma de vida, ‘‘evitando o habitual orgulho e preconceito sobre o modo como conduzimos as nossas vidas’’. Estão presentes os livros ‘‘O Macaco Nu’’ (publicado pela Editora Record), ‘‘The Human Zoo’’, ‘‘Intimate Behaviour’’, ‘‘Babywatching’’, ‘‘The Book of Ages’’ e ‘‘The Biology of Art’’.
Entre os argumentos apresentados por Morris, destaca-se a hipótese de que o homem, em seu processo de evolução, na transição de símio para humano, passou por uma etapa marítima onde a água ajudou-lhe a conquistar a posição ereta. Na realidade, esta teoria foi criada pelo biólogo marinho Sir Alister Hardy em 1930. Comparando animais marinhos com a composição física do homem atual, Hardy percebeu muitas similaridades. Morris parte da conclusões do biólogo para aprimorar a hipótese que pode abolir a teoria tradicional de que o homem atingiu a posição ereta pelas especificações das savanas.
Desmond Morris deixa claro que o instinto e o aparato genético do ser humano nunca poderão ser esquecidos ou colocados de lado. São fatores vividos durante milhões de anos e não podem simplesmente desaparecer. No mundo atual estes instintos assumem outras formas, como no caso da caça para a sobrevivência: ‘‘Atualmente o emprego ocupa o lugar da caçada. O local de trabalho torna-se um território de caça simbólica. Os machos tentam fazer uma ‘‘matança’’ na cidade para ‘‘levaram um pedaço de carne’’ para as famílias. Para alguns o local de trabalho é destituído da excitação da caçada. As tarefas são monótonas e repetitivas. Estes indivíduos procuram em suas folgas uma caçada simbólica em outros lugares, como esporte e passatempos competitivos’’.
Outro interessante livro de Morris é ‘‘O Contrato Animal’’, publicado pela Editora Record. Partindo da constante degradação do meio ambiente e do desrespeito a todas as formas de vida existentes na Terra, o zoólogo defende a retomada de nossas origens pré-históricas, quando o homem viveu submetido às leis naturais. O princípio do contrato animal está na ocupação ordenada do planeta por todas as espécies animais, principalmente a espécie humana: ‘‘Ao subjugar os outros animais e relegá-los a uma condição inferior, afastamo-nos da verdade básica de que também fazemos parte desta complexa rede biológica que foi rompida, causando danos irreparáveis à vida. Em dez mil anos, reduzimos os territórios e a existência de outras espécies em proporções tais que somente uma mudança radical no comportamento humano pode reverter este processo.’’
SERVIÇO:
‘‘O Animal Humano - Uma Perspectiva Pessoal da Espécie Humana’’ de Desmond Morris, Editora Gradiva, tradução de Jorge Lima e Maria Carvalho, 223 páginas, R$ 52,00.
‘‘O Macaco Nu - Um Estudo do Animal Humano’’ de Desmond Morris, Editora Record, tradução de Hermano Neves, 188 páginas, R$ 10,00.
‘‘O Contrato Animal’’, de Desmond Morris, Editora Record, tradução de Lucia Simonini, 175 páginas, R$ 10,00/Livraria Rosa do Povo.

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