Um passeio pela Bienal
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de maio de 2002
Rubens Pileggi Sá <br>Especial para a Folha 2 
Percorrer a 25ª Bienal Internacional de São Paulo também é uma arte. A Folha 2 elaborou um roteiro para situar melhor o visitante dentro parque Ibirapuera
São Paulo - Um bom programa cultural para quem estiver pensando em ir para São Paulo é visitar a 25ª Bienal Internacional de Arte no parque Ibirapuera, um evento tradicional no circuito das artes no mundo, sendo considerado um dos três maiores no gênero, ao lado da Bienal de Veneza e da Documenta de Kassel, na Alemanha.
Desde 1951, a Bienal tem trazido para o Brasil nomes como Picasso, Magritte, Chagall, Miró, Duchamp, etc., mostrando, além dos nomes consagrados, artistas brasileiros e um panorama das tendências artísticas do momento. Este ano, por conta do corte de verbas e para tornar a proposta da Bienal mais coesa, o núcleo histórico foi eliminado e a ênfase recaiu sobre a produção contemporânea da arte no Brasil e no mundo.
Para organizar o nome dos artistas, foi convidado o alemão Alfons Hug - o primeiro estrangeiro a fazer a curadoria de uma Bienal - depois da demissão do brasileiro Ivo Mesquita, por motivos de política interna. Em todo caso, a proposta de fazer da metrópole urbana o tema da mostra seria o eixo predominante em ambos os casos. Assim, com o título Iconografias Metropolitanas, a mostra foi dividida entre 11 capitais de diferentes países e mais uma, criada pelos artistas, denominada de cidade utópica. Além das Representações Nacionais, do módulo Net Art e das Salas Especiais com artistas contemporâneos consagrados. A representação brasileira ficou a cargo do curador Agnaldo Farias que trouxe para Bienal 30 artistas, sendo 2 deles do Paraná: Eliane Prolik e Carina Weidle.
Espalhados pelos três andares do prédio da Bienal, 190 artistas de 70 países diferentes discutem a questão da cidade em seus trabalhos, em linguagens que vão da pintura à videoinstalação, do deslocamento de matérias e materiais - como Marepe, que tirou um muro de São Luís, no Maranhão e o exibe no 2º andar - ao deslocamento de uma parede de vidro permitindo a entrada gratuita dos visitantes que descobrirem essa possibilidade (infelizmente super controlada), criada por outro brasileiro, o artista Rubens Mano. Instalações, casinhas, pinturas, fotografias e vídeos tem em quantidade.
Atravessar essa Babel em que o mundo inteiro fala a mesma língua - a das artes visuais - exige tempo e fôlego. E a receita para isto é ter calma e roupas confortáveis para enfrentar uma verdadeira maratona cultural já visitada por mais de 300 mil pessoas este ano. É melhor ver poucos trabalhos - dependendo do tempo que se tem - bem vistos, do que passar correndo pelas salas sem se deixar ser tocado pela poética das obras. Como uma espécie de visita monitorada a Folha 2 relacionou e comenta a seguir algumas delas:
Terceiro andar
Começando pelos fundos do terceiro pavimento, a vídeoinstalação de Shirin Neshat - uma iraniana radicada em New York - é uma das obras mais comoventes do evento. Em uma sala escura, dois filmes passam simultaneamente, cada um projetado de um lado da parede, mostrando a mesma mulher vestida com roupas típicas (chador), desconfortavelmente à procura de algo (de si) em uma cidade do Oriente Médio e em uma grande cidade Ocidental. Uma curiosidade é que uma das cenas foi filmada nas escadas rolantes dentro do Word Trade Center. Duração média 15 minutos.
Um desenho animado de outra artista, Tabaimo, de Tóquio, também não deixa por menos em sua capacidade de comover. Sua instalação lembra as ruas de uma cidade e as cenas se sucedem na tela de maneira muito triste e surreal, enquanto em um sinal para pedestres, os homenzinhos verdes e vermelhos do semáforo ganham vida pela luz que pisca a todo momento.
Do Japão ainda e ao lado dessas instalações, o artista Tatsumi Orimoto, cuida de sua mãe, que sofre do mal de Alzheimer, criando performances nonsenses com ela e tirando fotografias de situações engraçadas, absurdas, beirando a perversidade e o ridículo.
Passando para as Salas Especiais, ainda no terceiro andar, temos as pinturas de Sean Scully, dos EUA, que se contrapõem - em sua tranquilidade e senso de ordem - ao ritmo frenético das cidades, e também as pinturas de outro norte americano, o neo-pop Jeff Koons, que se tornou popular depois de protagonizar um casamento com a atriz pornô Cicciolina realizando esculturas dos dois fazendo sexo. Por falar nisto, outra convidada para as Salas Especias, Vanessa Beecroft, que fez uma performance logo na abertura da Bienal com mulheres nuas, mostra as fotos de outra performance - enormes - sobre o mesmo tema.
Saindo do terceiro pavimento, temos a concentração brasileira, que além de Marepe, Prolik e Weidle, tem também Ricardo Basbaum - com uma de suas estruturas NBP (Novas Bases para a Personalidade) que teve vetado as bolas de futebol para as pessoas chutarem na parede de metal - além do registro da destruição de um Maverik pelo grupo Chelpa Ferro, do Rio de Janeiro e os outros ambientes de artistas, na maioria instalações.
Segundo andar
Descendo para o segundo piso, o mais caótico, vêm as Representações Nacionais, e a continuação dos artistas das 11 cidades. Aqui, começando pelo meio do pavimento, temos a casa iluminada de cor de Carlos Cruz-Diez, um veterano artista da Optical Art, atualmente radicado em Paris. Indo para os fundos, no conjunto, as obras dos artistas de Moscou comovem por mostrar a decadência moral e espiritual do país. São instalações parodiando os monumentos do tempo heróico do construtivismo, fotos mostrando pessoas decrépitas, pinturas que não escondem escárnio diante da situação. Mas no caminho até lá você pode mergulhar no vídeo de um vietnamita que mostra uma corrida de Riquixás no fundo do mar, rir em uma instalação do austríaco George P. Thomann - na verdade um nome fictício inventado por um grupo de artistas - ou descansar um pouco na casa de uma artista grega, onde não falta nem a cama de casal para dormir. Um trabalho muito delicado - de dois russos - é feito com containers de lixo atômico, com aberturas que mostram uma cidade de barro cozinhando lá dentro.
Primeiro andar
No primeiro piso, o mais fraco, vale destacar uma salinha pequena pintada de preto com uma caixa de giz comum para as pessoas desenharem nela, funcionando como uma metáfora das pichações na rua, onde as pessoas escrevem seus nomes umas sobre as outras, na tentativa de conseguir enxergar aí alguma identidade.
No térreo, a grande estrela, sem dúvida, acabou se tornando o fotógrafo Spencer Tunick, que realizou uma foto com 1100 pessoas nuas dentro do Parque Ibirapuera, gerando o maior efeito de mídia do evento.
Tem também as fotos do hospício em Taiwan, muito contundentes, a banca móvel para exibir trabalhos dos artistas do Helmut Batista, uma escultura espiralada de isopor e aquele cara rindo à toa na instalação do Marcos André, mas isto e o resto fica para quem for de fato ver a 25ª Bienal que vai até 2 de junho.
Serviço
Local: Pavilhão da Bienal - Parque do Ibirapuera
Entrada pelo portão 3
Horário de funcionamento:
De segunda-feira a domingo (inclusive feriados) - das 9 às 22 horas
Preços: R$ 12,00 (inteira)
R$ 6,00 (meia)
Data de encerramento: a 25ª Bienal Internacional de Artes fica aberta ao público até 2 de junho
Ação Educativa - Agendamento para monitoria
Telefone: 5574-5922 r. 271 c/ Maria Silvia, Ercília, Gisa
Site Oficial: www.bienalsaopaulo.org.br


