São Paulo, 03 (AE) - Dois homens presos às suas funções profissionais tentando romper o peso de uma tradição histórica são personagens da peça "Um Passeio no Bosque", do americano Lee Blessing, autor inédito no Brasil, que estréia amanhã (04) na Sala B do Teatro Alfa, em São Paulo, sob direção de Emílio di Biasi, que também atua ao lado de Beto Bellini. Biasi procurava um texto para encenar quando recebeu a peça das mãos da tradutora, a crítica teatral Bárbara Heliodora. "A decisão de montá-la foi imediata".
Premiada pela Associação Americana de Críticos de Teatro
"Um Passeio no Bosque" foi protagonizada por Alec Guinness e Edward Hermann na Inglaterra. Na encenação de Biasi, o espetáculo estreou no Rio onde foi apontado pela crítica como um dos dez melhores do ano e valeu a Biasi e indicação para o Prêmio Shell/99 de ator.
A ação transcorre em Genebra, no auge da guerra fria, quando parecia iminente um choque entre as duas superpotências que poderia exterminar a humanidade. Em cena, dois diplomatas, um americano e um russo, negociam um acordo para controle de armas nucleares. No lugar da tradicional mesa de negociação, o diálogo "aparentemente" informal entre eles ocorre no banco de um bosque, onde foram dar "um passeio".
"À primeira vista, a trama parece muito simples e estreitamente ligada ao período político em que está inserida", diz Biasi. "Mas trata-se de um texto fascinante, com dois personagens muito bem elaborados". O diretor chama a atenção para o fato de não haver psicologismos nem mesmo informações de ordem pessoal sobre os personagens: não se sabe, por exemplo, se são casados ou têm filhos.
Eles têm sua história intimamente ligada à história de seus países de origem. "O que torna o texto atraente é a forma como o autor constrói o diálogo entre os personagens". O diplomata russo, vivido por Biasi, é um homem desencantado, que há anos negocia por seu País, sem sucesso. Já o americano é um jovem cheio de vigor, que acredita no êxito de sua missão. "O autor enfoca o confronto entre essas duas personalidades".
A aparente frieza dos negociadores vai aos poucos deixando entrever a emoção que envolve as convicções de ambos. Se a ameaça de uma hecatombe nuclear não está mais na ordem do dia como no período enfocado na peça, o tema não perdeu de forma alguma a atualidade. É só imaginar um acidente numa das usinas nucleares de Angra.
"Os dois personagens discutem, durante a guerra fria, sobre a forma como a humanidade está agindo sobre o planeta", observa Biasi. "E de lá para cá deu tudo tão errado que, infelizmente, a reflexão proposta pelo texto está ainda mais atual". Mas se os problemas continuam os mesmos, ou foram agravados, mudou a crença nos instrumentos de transformação.
"Um Passeio no Bosque" estreou em 1987, época em que a crença na revolução passava do coletivo para o individual. Com todo o aparato tecnológico das duas superpotências, o autor concentra em apenas duas pessoas a discussão sobre o poder de mudar o mundo. "Eu acredito cada vez mais na importância da transformação individual", diz Biasi. Como sugere o texto, a concepção cênica de Biasi está totalmente apoiada no trabalho dos intérpretes.
No palco, apenas as tábuas verticais que sugerem o "bosque" do título e um banco compõem o cenário de Colmar Diniz, iluminado por Maneco Quinderé. "O espetáculo é discussão de duas pessoas, uma peça de palavras", afirma Biasi. São dois negociadores e a trama assemelha-se a um jogo de xadrez, no qual as peças são as palavras. Que poder têm as palavras de dois homens contra as armas?
Num dado momento da peça, os personagens comentam a responsabilidade colocada sobre seus ombros. "Se os homens tivessem mesmo interessados na paz, haveria milhares de nós e apenas dois soldados". Mas ainda assim eles tentam encontrar caminhos. "Eles tentam e ficam claramente emocionados - algo que não parece possível a homens na sua posição - quando pensam ter conseguido". Serviço - "Um Passeio no Bosque". De Lee Blessing. Direção de Emílio di Biasi. Duração: 90 minutos. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 25,00 e R$ 30,00 (sábado). Teatro Alfa - Sala B. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000. Até 27/2