Rio de janeiro. Sábado de sol, passeando com amigos. Atravessar o túnel sobre os ''Dois Irmãos'', debaixo da favela do Vidigal para chegar à Barra da Tijuca é como sair de um mundo e entrar em outro, cheio de contradições e paradoxos. Logo depois do buraco onde passam os carros, se descortina um lugar construído no meio do que antes, pouco antes, uns 20 anos, era a mata Atlântica banhada por manguezais e hoje é um cenário de concreto e vidro. Para começar, um clube inglês, refúgio de lordes, com campo de golfe e tudo debaixo da favela. Depois, atrás de um muro, a Universidade Gama Filho decorada com estrelas e motivos natalinos, continuada por um shopping gigantesco chamado Città América. Triste. Pergunto se é a tal arquitetura pós-moderna aquele edifício. Mas não, é só uma cópia que finge uma austeridade do estilo Washington D.C.
Chegamos ao Rio Design (outro shopping, este de decoração), um caixote branco que destoa da fake paisagem urbana. Lá dentro, o luxo, como todo lugar de classe deve ser. A decoração das vitrines das lojas me faz logo lembrar o elogiadíssimo trabalho da artista Lygia Pape, que está exposto no Museu Paço Imperial, no centro velho do Rio de Janeiro. Uns fios dourados esticados, uma iluminação impecável.
Decoração, design, cenário, ilustração, o que está exposto como obra nos espaços expositivos para a arte não faz mais diferença com o que está exposto como mercadoria no comércio em geral. A arte já não reclama mais nada para si. Só a beleza vazia.
Em frente a uma das lojas, um jogo de cadeiras estilo ''Bauhaus'' concebido originalmente como projeto revolucionário para a época, agora serve de deleite para a sanha de vorazes consumidores endinheirados. Minha ilusão vai se definhando.
Antes eu acreditava que eram as ''artes menores'' que buscavam na ''grande arte'' a inspiração para os trabalhos comerciais. Doce ingenuidade! O contrário, hoje, me parece bem mais apropriado para compreender a situação. Ali é um lugar que corre dinheiro alto e o conceito de qualidade aceito é o do discurso da eficiência, da beleza que enche os olhos. E só. Tudo é tão limpo, tão claro, tão asséptico, que, diante daquilo, oh!, ficamos encantados, hipnotizados, iludidos, bestas. Tudo é passível de se tornar ''estetizável''. É preciso fazer desaparecer as contradições.
Mas o golpe mortal mesmo ainda estava por vir. Ao descer uma das inúmeras escadas rolantes para ir embora, eis que, à minha frente, nada mais nada menos do que um autêntico Antonio Dias (gritinhos de oh!, novamente). O mesmo, mas o mesmíssimo trabalho também exposto no Paço Imperial, na sala ao lado da Lygia Pape. Ali, no ''espaço cultural'' do tal shopping, feito sob encomenda para a Associação dos Moradores da Favela da Rocinha. Arte e miséria instrumentalizadas à serviço da manutenção dos privilégios do poder de uma minoria! O trabalho exposto era uma marionete felpuda, sustentada por cordas, sem rosto, lembrando um pé de cactus inofensivo. Seria uma bela metáfora, se minha desconfiança não visse cinismo e ironia naquilo, também. Mas pode ser eu sem saber ler o óbvio. Purismo.
Aquelas vitrines, tão bacanas! Assinadas por artesãos da favela, mas nem parecia que tinham sido feitas por eles, de tão chique.
Natal sem fome, né? Engraçado. Fome de quê?
Pobre de minh'alma!
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