Um paralelo entre a arte e a ciência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de março de 2003
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Dizem que, depois de muito trabalho intelectual, quando os cientistas finalmente alcançarem o alto da montanha do conhecimento sobre a vida, de onde se descortina um infinito horizonte, pontuado de outros tantos mistérios, lá encontrarão os religiosos, já confortavelmente instalados, pois ao topo teriam ascendido há muito tempo, usando apenas o impulso de sua fé. Contudo, é bem provável que o cume desta montanha seja mais frequentado do que se imagina, contando também com artistas, que por lá transitam à vontade, orientados pelas coordenadas de sua sensibilidade e intuição.
Foi assim com Jackson Pollock, pintor norte-americano nascido em 1912 e que morreu em um acidente de automóvel, aos 44 anos. Considerado um expressionista abstrato, caracterizou-se especialmente por recorrer a um processo de pintura absolutamente inovador. Trabalhando no amplo celeiro de uma casa de campo, Pollock respingava tinta comum, com a ajuda de uma vareta de madeira, sobre uma lona estendida no chão. A sobreposição sucessiva de camadas de tinta em linhas contínuas, mas de forma aparentemente aleatória, acabava resultando em imagens caóticas, que causavam choque e admiração. Críticos e apreciadores de arte perguntavam-se, diante do efeito anárquico que o pintor conseguia, se suas obras seriam fruto de puro gênio ou apenas diabruras de um bêbado auto-destrutivo - que era a forma como vivia - , debochando das tradições artísticas.
O fascinante mistério da obra de Pollock só começou a ser desvendado recentemente e não, como se poderia pensar, por um crítico ou historiador de arte, mas por um cientista. Em trabalho de pesquisa publicado na edição brasileira de janeiro de 2003 da revista ''Scientific American'', o físico americano Richard P. Taylor revelou que há uma profunda ordem na desordem artística de Pollock e, o mais surpreendente, a organização intrínseca da maioria de suas obras reproduz ''exatamente'' o padrão de organização da natureza, descoberto com os fractais, na década de 70. Soube-se, então, que o pintor, movido apenas por sua intuição, havia chegado à ordem que subjaz ao caos aparente 25 anos antes que qualquer investigação científica sequer considerasse a hipótese de sua existência.
Até que surgisse a ''teoria do caos'', como vem sendo chamada a nova área de estudo científico, na qual os fractais se inserem, supunha-se que a natureza operasse de maneira essencialmente aleatória, sem ordem definida. Contudo, nas últimas décadas do século XX, começou-se a perceber que sistemas naturais, como o clima, por exemplo, obedecem a uma ordem extraordinariamente sutil, e que basta uma pequena variação em alguma de suas condições, como o bater de asas de uma borboleta, para desencadear, com o tempo, grandes mudanças no conjunto como um todo. Isso implicaria, de acordo com os investigadores do ''caos'', na existência de uma estreita e harmoniosa ligação entre todos os elementos que compõem a vida, gerando um determinismo que elimina a possibilidade do acaso.
Encadeada a essa nova maneira de ''ver'' a natureza, seguiu-se a constatação do matemático polonês Benoit Mandelbrot, quando trabalhava para a IBM, nos Estados Unidos, a respeito dos fractais. Por meio de uma nova geometria, capaz de mensurar formas irregulares - os contornos de uma folha, as sinuosidades de um litoral, as escarpas de uma montanha ou os fragmentos de uma rocha -, Mandelbrot descobriu que a irregularidade era, na verdade, perfeitamente regular. O matemático constatou que, ao se fracionar um pedaço de um todo irregular, esse pedaço revelava-se semelhante ao conjunto inteiro. Com a ajuda dos computadores, esse padrão de auto-similaridade ou auto-semelhança, presente na ordenação da natureza, tornou-se uma arte, que veio a ser conhecida como a arte dos fractais (do latim ''fractus'', que significa ''quebrado''). E Pollock, sem saber, foi o primeiro a vislumbrá-la. ''Meu interesse são os ritmos da natureza'', costumava dizer, ao explicar que pintava paisagens, apesar do caos abstrato que se visualizava em suas telas. Ninguém conseguia vê-las porque eram as suas ''paisagens interiores''. Contudo, e isso explica a admiração que sempre suscitou, todos podiam senti-las e, hoje, está sendo possível até mesmo mensurá-las.


