Seriam as cabras selvagens das Ilhas Galápagos o elo perdido entre os seres terrestres e marinhos? Esta pergunta, capaz de arrepiar o grande e puritano Darwin em sua tumba, pode parecer piada, mas não é. Observações realizadas por pesquisadores do Parque Nacional indicaram a existência, em ilhas remotas, de algumas cabras que sobrevivem sem água doce. Esses animais foram vistos bebendo água salgada, o que poderia representar uma adaptação inédita na cadeia de vida dos mamíferos no planeta.
Seria um caso semelhante ao das iguanas marinhas, répteis pré-históricos que só existem por lá. Durante milhões de anos, elas foram se adaptando à falta de água doce e hoje bebem do mar. Desenvolveram uma glândula para excretar o excesso de sal em forma de saliva. E fazem isso dando cuspidas frequentes. Por isso, quando vir uma iguana em Galápagos, saia da frente, pois ela cospe longe. ''A maior ameaça aos milhões de animais que vivem no arquipélago são os bichos domesticados pelo homem, remanescentes de exemplares largados em ilhas remotas pelos navegadores do passado,'' constata a bióloga e guia Gilda Gonzalez.
Era uma prática comum entre marinheiros abandonar animais domésticos como cabras e porcos, que serviriam depois como estoque de carne. Os bichos adaptaram-se tão bem às ilhas que se tornaram selvagens. Mas devoram tudo, começando pelos ovos de tartarugas e aves endêmicas. Para combater essa praga, existe um programa de cooperação entre um parque da Nova Zelândia e o de Galápagos. A idéia da iniciativa é treinar guias para o abate sistemático desses bichos.
Trabalhos de pesquisa e preservação como esse são desenvolvidos pelos integrantes da Estação Científica Charles Darwin. Situada na Ilha de Santa Cruz, em Puerto Ayora, numa área que ocupa 15 hectares, a fundação reúne peritos da ciência mundial e se dedica ao estudo e à conservação dos recursos naturais do arquipélago. Foi inaugurada junto com o parque, em 1959, ano do centenário da publicação do livro ''A Origem das Espécies'', a bíblia da Teoria da Evolução. Mas existem outras ameaças rondando as ilhas - declaradas Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO -, além dos porcos e cabras selvagens: petroleiros.
Em 16 de janeiro deste ano, o Jéssica derramou 605 mil litros de combustível no oceano. A embarcação se preparava para atracar em Puerto Baquerizo, capital de Galápagos, na Ilha de São Cristóbal, quando colidiu com uma barreira de corais. Várias manchas de óleo se formaram no mar e chegaram a atingir aves e animais marinhos nas praias das Ilhas de São Cristóbal e Santa Fé, esta última lar de uma colônia de iguanas endêmicas.
As terríveis imagens de leões-marinhos, gaivotas e pelicanos manchados de óleo negro ocuparam espaço nas manchetes dos jornais e assustaram os ecologistas de todo o mundo. Para evitar um desastre maior, guias do Parque Nacional de Galápagos, cientistas da Estação de Pesquisa Charles Darwin e voluntários de comunidades insulares mais próximas fizeram um mutirão para limpar as praias e os animais atingidos.
O governo equatoriano recebeu, na época, ajuda internacional da Guarda Costeira dos Estados Unidos e até de uma equipe brasileira da Petrobrás, especializada em vazamentos. As condições climáticas e os esforços da comunidade foram decisivos para evitar maiores prejuízos. As fortes correntes marítimas e o vento afastaram a mancha de petróleo para o alto-mar, minimizando o custo ambiental. Apesar do susto, o turismo foi rapidamente reaberto. Permanece, no entanto, o alerta.

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