DivulgaçãoZé Celso no papel de ‘‘Ela’’, Sua Santidade, o Papa, segundo texto de Jean GenetMelhor data para estrear, impossível. Melhor jogada de marketing, idem. Vamos lá. ‘‘Ela’’ foi aos palcos paulistano no mesmo dia em que Sua Santidade, o papa João Paulo II, vinha pregar ao povo brasileiro e, de quebra, ouvir Roberto ‘‘tantas emoções’’ Carlos e Fafá ‘‘urubu canoro’’ de Belém cantar músicas religiosas. ‘‘Com a vinda do Papa pensamos que a peça poderia estrear naquele momento porque iria iluminar o sentido dela’’- afirma Zé Celso. ‘‘Do ponto de vista de espetáculo de mídia, o fato de sair uma foto Dela, no caso eu, fotografado por Bob Wolfenson numa capa de jornal e na outra capa sair a foto do Papa foi um golpe de teatro. Não um golpe baixo, mas uma tirada teatral que só enriqueceu a peça’’- completa ele.
Há tempos o texto de Genet já rondava a cabeça do diretor. Há oito anos, pensou em Grande Otelo. Não deu certo. Passou por sua cabeça convidar Fernanda Montenegro e Paulo Autran. Ficou nas intenções. A personagem acabou caindo em suas mãos. E ele deu a ‘‘Ela’’ um gosto a mais de saborosa provocação. Ou seja, um papa fazendo um Papa. Um ícone sagrado do teatro fazendo as vezes de uma mundialmente venerada imagem.
Há prazer em tudo isso, é claro. Porém, Zé Celso se dá o direito de brincar até mesmo com sua imagem, a imagem que a mídia tanto alimenta e que ele, por muitas vezes, ajudou a construir. ‘‘Eu gosto de explodir imagens. Nessa peça eu tenho a oportunidade de brincar com isso teatralmente. Eu visto a roupa do Papa, eu viro Papa e brinco com a imagem de todos os papas, inclusive com a minha a cada segundo’’- analisa.
‘‘Ela’’, obviamente, esbarra em mitos católicos. Entretanto, Zé Celso admite ter uma certa simpatia por João Paulo II. Uma simpatia, é bom dizer, à sua maneira. ‘‘Tenho uma identificação grande porque ele foi ator na juventude. Minha admiração por ele se deve ao fato de que enquanto os outros papas representaram mal ele representa bem. Agora que ele está muito exausto, deixa o Fidel roubar a cena’’- afirma. Então tá!
Não é tarefa das mais fáceis saber onde começa e onde termina o provocador, o polemista Zé Celso Martinez. Mas é possível perceber, no meio de tudo isso, que ele é sobretudo um sujeito genial, gentil, de raciocínio brilhante (embora muitas vezes ramificado), um provocador muito útil. Um homem que faz teatro até mesmo quando pára a entrevista coletiva para apreciar um vinho - ‘‘Concha y Toro’’ - e brindar, junto com jornalistas, o Festival de Curitiba. Coisas de Zé Celso, mas que vêm de uma maneira tão simpática e diferente que seria um pecado não dar uma bicadinha no vinho desse venerado senhor das artes.

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