UM PANORAMA DO CINEMA BRASILEIRO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de junho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Nem tudo se encontra à mão na Internet. Pelo menos por enquanto, quem quiser colher dados minuciosos e abalizados sobre a produção fílmica nacional vai ter que esquecer a tela e o mouse e se dedicar ao bom e velho hábito da leitura de um livro.
Acaba de sair a Enciclopédia do Cinema Brasileiro (editora Senac), um vasto levantamento organizado por Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda com a colaboração de 45 especialistas espalhados pelo país. Fernão é autor de Cinema Marginal 1968-1973: A Representação em seu Limite (1987) e organizador da coletânea de textos História do Cinema Brasileiro (1987).
Miranda escreveu o Dicionário de Cineastas Brasileiros (1990). Os colaboradores entre eles Lúcia Nagib, José Mario Ortiz e Inimá Simões também já assinaram títulos na área. A enciclopédia é uma obra de peso, nos dois sentidos que se queira emprestar a essa palavra. A lombada é gorda, o suficiente para acomodar os mais de 700 verbetes dedicados à trajetória do cinema verde-amarelo.
Como toda obra de referência, chega para sanear lacunas de nosso mercado editorial, que já exigia um volume do gênero. Engana-se, porém, quem imaginar uma obra repleta de verbetes sobre filmes: os filmes são citados aos montes a cada página, mas não como temas dos verbetes.
Na elaboração da obra, os autores preferiram privilegiar personalidades e tópicos variados que cobrem desde períodos e instituições significativas (tais como Cinema Novo, Chanchada, Pornochanchada, Documentário, Cinema Marginal, Ciclos Regionais, Festivais, Revistas, Cinematecas, Cineclubes, Embrafilme, etc ) até estados da Federação com produção considerável (Bahia, RS, Amazonas, Paraná, MG etc) passando pelas funções exigidas na atividade (fotografia, cenografia, roteiro. etc) e itens diversos correlacionados (livros, cartaz, laboratórios, literatura, teatro, cantores-atores, etc).
As personalidades incluem diretores, atores, fotógrafos, produtores, cenógrafos, roteiristas e montadores. Há também críticos de cinema, caso de Paulo Emilio Salles Gomes, José Lino Grunewald e Vinicius de Moraes. A londrinense Claudette Joubert, na verdade Cleodete Carvalho Moreira, aparece verbetizada como atriz e musa da Boca do Lixo.
Para completar, um rico material iconográfico com 190 fotos fecha o volume capturando cenas impagáveis como Leila Diniz em lágrimas no filme Todas as Mulheres do Mundo (de Domingos de Oliveira), Odete Lara em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha) e Paulo Villaça em O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla).
No texto de apresentação, os dois coordenadores do projeto salientam que a escolha das personalidades baseou-se numa mistura de critérios quantitativos e qualitativos. O critério quantitativo levou-os a considerar a extensão da obra de cineastas ou atores. Um diretor com 30 longas-metragens, por exemplo, foi selecionado para ser verbetizado, independentemente da repercussão de sua obra explicam eles.
O recorte implicou uma representação maior da produção cinematográfica realizada na chamada Boca do Lixo, o paraíso das pornochanchadas nos anos 70 e começo dos 80. Nenhum representante do gênero, contudo, aproximou-se em número de linhas ao espaço dedicado a cineastas do porte de Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Julio Bressane ou Carlos Reinchebach.
Os dois organizadores contam que a idéia de publicar uma Enciclopédia surgiu no início dos anos 90, quando constataram a falta de livros de referência sobre a produção cinematográfica nacional. Mais tarde, receberam um uma bolsa de pesquisa da Fundação Vitae, o que deu impulso ao projeto coincidindo com a retomada da produção de filmes graças à Lei de Incentivos Fiscais. O resultado da empreitada é admirável.


