'Um paliativo para a dor'
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de março de 2009
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O tempo distribui segredos nas hipóteses, como mostra a coreografia ''Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças'', que o Ballet de Londrina estreia em junho, no Festival Internacional de Londrina (Filo).
Depois do sucesso de ''Decalque'', que marcou os 15 anos da Companhia, assistido por um público de 26 mil pessoas, em quase todas as capitais brasileiras e Lima, no Peru, totalizando 69 apresentações, o Ballet de Londrina empreendeu uma mudança de rota na viagem coreográfica inicial proposta pelo diretor Leonardo Ramos.
A começar pelo nome do espetáculo, que circulou por várias ideias até que a maturação da coreografia nos ensaios definiu por um verso do poema ''Canção Amiga'', de Carlos Drummond de Andrade (1902-2002). Em seu poema, Drummond diz que distribui segredos e os deixa escapar na hipótese de quem ama ou sorri. Na coreografia de Ramos esse amor e sorriso estão estampados no corpo dos bailarinos.
''Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças'' é um Leonardo Ramos diferente, modificado, mantendo a coerência coreográfica com toda a explosão capaz de despertar o mundo natural do diretor ou enternecê-lo em sua poesia.
''O que mudou na companhia foi a maneira de fazer a aula. Antes acreditava que a dança clássica dava conta de tudo. O corpo para fazer o que fazemos tem que estudar e encontrar uma nova maneira de agir. Tínhamos que achar outras coisas, já que queríamos uma linguagem contemporânea baseado no clássico'', afirma Ramos.
A técnica de dança moderna chamada Hurtun molda o corpo e perfil dos novos do elenco.
Para levantar todas as paredes de ''Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças'', o diretor conta que deixa alguns buracos e aos poucos faz o acabamento final.
Ao abrir um ensaio para a reportagem da FOLHA, Ramos mais uma vez revela toda a transparência que marca os seus trabalhos, que dialogam com o cotidiano londrinense: político, social e até moral, mas que também estão no olho do mundo ao mirar nas inquietações humanas.
''Enfrentamos um problema com a composição da trilha sonora, que não foi entregue a tempo. Recorri a uma série de CDs lançados nos Estados Unidos, na década de 80, um material chamado de pós-rock, distribuido gratuitamente e aí surgiu uma coregrafia inspirada nos dias de hoje. Estamos numa espécie de vão oco. Em 1 hora de duração da peça e na própria precariedade da arte, o espetáculo é um paliativo para a dor'', comenta.
A montagem está sendo colocada em pé em tempo recorde. O processo foi iniciado em 26 de janeiro. Para Ramos, o desgaste incluiu voltar ao hábito de fumar - até duas carteiras de cigarros por dia - acordar às 6 da manhã e dormir de madrugada.
O elenco foi parcialmente renovado. O diretor trocou um grupo reconhecido pela força física por bailarinos com outras características, incluindo uma das promessas da Escola Municipal de Dança, Vitor dos Santos Rodrigues, de apenas 13 anos de idade, que colaborou sugerindo algumas coreografias.
''No segundo ano de balé, eu quis parar por causa do preconceito dos piás, mas meu pai investiu em mim'', conta o menino, que foi descoberto numa seleção de alunos numa escola do Conjunto Cafezal.
''Gosto muito de dançar. Vejo uma perspectiva profissional para mim. Penso em misturar o clássico ao hip hop e em ser professor ou até mesmo diretor do Ballet de Londrina'', diz Rodrigues. Mais do que qualquer um, ele crê que qualquer hipótese pode despertar ou adormecer homens e crianças.


