Um palco repleto
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de março de 1999
Marcelo Puppi Munhoz Especial para a Folha 
Já foi dito que para que o teatro aconteça basta que se encontrem um ator e uma platéia. Acrescente-se a isso a possibilidade de que desse encontro participe um grande intérprete, um intérprete capaz de fazer a dramaturgia, ou seja, a idéia do espetáculo ressoar em seu interior, mover seus impulsos, e tenha meios de trazer esta fusão para o espaço da cena. Teremos bons momentos de teatro.
Comecemos com Tu e Eu, espetáculo que traz à cena a atriz Walderez de Barros, sob direção de Jorge Tacla, baseado na obra mística do poeta Maulana Rumi (1207-1273). Foram utilizados para o espetáculo os textos que o poeta escreveu inspirado pela sua relação com outro mestre místico chamado Shamz Tabriz: falam de um amor total, essencializado, quase divino; daí surgem as contra-reflexões, quando o amante descobre-se humano e vive, dentre outras confusões, a ausência.
Com simplicidade, um cenário somente integrado à simbologia do tema e uma sonoplastia que pontua e amarra os momentos do texto, a montagem apoia a performance da intérprete. Não poderia ser de outra maneira. O entendimento e o respaldo de vida da atriz ao conduzir o texto até a platéia proporcionam momentos de contato intenso com a poesia de Rumi.
Nijinsky, com direção de Rossella Terranova, teve, como Tu e Eu, sua estréia no Festival de Teatro de Curitiba. O texto do espetáculo baseia-se nos chamados Diários de Nijinsky, escritos pelo genial bailarino russo às vésperas de seu internamento em um manicômio, reclusão que se estendeu por 30 anos, até sua morte.
São momentos de uma aflição desesperadora. Mesmo que ainda não estejamos a par da iminência do sepultamento de uma vida apaixonada, nossa atenção prende-se na presença e composição do ator Luís Melo. Está ali, a cada olhar, a cada palavra, a dimensão trágica de uma espera terrível.
O palco fica ainda mais repleto dessa presença pelo trabalho conjunto e esplêndido da cenógrafa Teca Fichinski e do iluminador Paulo César de Medeiros. Os movimentos de luz pulsam junto com a respiração e os espasmos de um Nijinsky que balbucia suas últimas palavras.
Tu e Eu e Nijinsky, dois monólogos, duas idéias sensíveis e oportunas, dois grandes intérpretes, nos presentearam com momentos dos mais significativos deste Festival de Teatro de Curitiba.
* Marcelo Puppi Munhoz é ator e jornalista


