Brasil! Brasil! Brasil!
Um país com uma seleção de futebol dessa categoria é o país mais feliz do mundo, gritava eu extasiado! ''Engano seu, amigo'', sussurrou um sujeito ao meu lado, com cara e sotaque de quem não era ''dessas bandas''. Irado, olhei para o indivíduo, e com atitudes nada amigáveis questionei sua afirmação, ao que ele me tranquilizou:
- ''Não é do seu país que estou falando, mas sim do meu, o Seraquistão''. E começou a relatar barbaridades sobre a sua pátria. Disse-me que o tal país é o maior exportador de jogadores de futebol do mundo, várias vezes campeão mundial das mais diversas categorias mas a população estava descontente. E não era só com o futebol propriamente dito. ''O sistema de saúde é inacreditável! A imensa maioria do povo é extremamente mal-atendida, com hospitais sucateados, insuficiência de médicos e leitos e com filas intermináveis''.
Eu só não acreditei quando ele disse que ''não era raro alguém morrer na porta do hospital por falta de atendimento''. Só se as pessoas lá tiverem ''sangue de barata'', pensei. Mas logo ele emendou: - ''A educação pública é lastimável; escolas desestruturadas, professores mal-remunerados e desmotivados, orçamentos mal-empregados ou desviados pela corrupção''.
Eu já me preparava para dizer que nem tudo estava perdido quando ele começou a falar sobre a segurança: ''Em muitas periferias das grandes cidades temos que andar com colete à prova de balas. Enquanto não escurece. À noite é bom ficar bem longe''. Estava achando aquele gringo exagerado, mas resolvi perguntar sobre a classe média daquele país.
''Bem, eles têm planos de saúde, os filhos estudam em escolas particulares e moram em condomínios com cerca elétrica e muitos seguranças, mesmo pagando uma das maiores cargas de tributos do mundo, que, teoricamente, seriam devolvidos em serviços públicos para toda a população''. Que otários, pensei baixinho pra não ofender.
''Será que não existem leis no Seraquistão?'' A resposta foi demolidora: - ''Como existem leis até demais, só mesmo bons e caros advogados para saber interpretá-las, o que faz com que nossas cadeias e penitenciárias fiquem superlotadas; de pobres, logicamente''.
Confesso que fiquei assustado, mas não desanimei e até quis saber se existia muita corrupção no Seraquistão. Percebi mais ironia do que dúvida quando ele afirmou que ''não sabia se o maior foco era no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário''. Do alto de minha vasta sabedoria vaticinei: - ''Vocês precisam escolher melhor os seus representantes, e pedi para que falasse um pouco da história política daquele curioso país. Eu não devia ter perguntado. ''Bem, (quando ele começava com ''Bem...' era de matar) após um triste período de ditadura militar conseguimos a redemocratização do Seraquistão, ocasião em que a população elegeu o presidente da República, também conhecido como o ''Caçador de Marajás''.
Foi cassado por corrupção! O seu vice assumiu e numa noite de Carnaval, ao lado de uma modelo com vestes precárias, teve um lampejo genial e produziu sua grande obra: o relançamento do FUSCA! Depois tivemos um sociólogo de esquerda e escritor muito conceituado. Sua declaração de maior impacto foi:
- ''Esqueçam o que eu escrevi! Hoje temos um ex-operário alardeando que, com o Bolsa-Família muitos brasileiros estão satisfeitos. Acredita-se que alguns banqueiros estão muito mais''.
-''Chega'', gritei, ninguém passa por tudo isso sem sucumbir! Mas foi perplexo que escutei: 'Sabe de uma coisa, eu sou seraquistense e não desisto nunca!'''. Se esse país não fosse tão longe eu diria que já ouvi algo parecido - meditei sem dar muita bola para pensamento tão erudito. '' Mas quando você irá retornar para o seu país'', perguntei tentando encerrar o insólito diálogo. ''Breve, se possível antes do Carnaval, pois acredito que até lá já teremos resolvido o apagão aéreo. Mas sobre isso eu explico em outra oportunidade''.
Esses gringos... só pensam em Carnaval!
Brasil! Brasil!

ALBERTO CHAHAIRA SOBRINHO é bancário aposentado e escritor amador em Bela Vista do Paraíso

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