A ‘‘pátria amada Brasil’’ escorre, literalmente, ralo abaixo para repousar no fundo do esgoto no mais recente romance de Diogo Mainardi.
Em ‘‘Contra o Brasil’’, lançado pela Editora Companhia das Letras, o escritor paulista desenterra os mais ácidos insultos proferidos contra o país nos últimos 500 anos por viajantes que aqui pisaram. Trata-se de uma sátira temperada com condimentos picantes de humor negro.
O personagem principal do romance, Pimenta Bueno, um canalha exemplar, passou a vida deitado no sofá da sala lendo toda espécie de livro. Seu grande e maior prazer é colecionar, de cabeça, citações de conteúdo antipatriótico, infame, desmoralizador e derivados proferidos contra seu odiado país, Brasil. Em cada três fases que profere, duas são citações amargas.
Um belo dia, sem dinheiro, resolve vender um antigo prédio, no centro de São Paulo, recebido como herança, onde funcionava um cinema. Ao visitar o local, descobre que o prédio abandonado serve de moradia para dezenas de mendigos. Diante da relutância dos mendigos em deixar o local, Pimenta Bueno espalha gasolina na calada da noite e coloca fogo em tudo, no prédio e nos mendigos.
O mau caráter do personagem é moldado pelo total desrespeito ao outro baseado em citações históricas. Sente-se à vontade em abusar sexualmente de sua empregada doméstica porque os antigos colonizadores abusavam das índias e escravas de sua propriedade. Sente-se à vontade em escravizar um negro (marido de sua empregada) obrigando-o a carregá-lo nas costas por longas caminhadas porque seus antepassados assim faziam.
Para Pimenta Bueno, ‘‘o país inteiro vale menos que o Estudo número 3, opus 10, de Chopin’’. Uma nação de total incompetência até nas doenças: ‘‘Em suas conquistas no Oriente, os europeus contraíram epidemias mortais como a peste e a cólera. A nossa abjeção e falta de caráter são tão profundas que aqui os colonizadores puderam agir impunemente, sem apanhar doença alguma, só transmitindo.’’ A economia brasileira é uma corrida para ver quem engana mais lucrando mais: ‘‘Em quinhentos anos de história, os índios sempre foram facilmente ludibriados no comércio com o branco. Essa incapacidade neolítica de compreender o real valor das mercadorias se arraigou na nossa cultura e acabou distorcendo de maneira irreparável a economia do país, que se fundou a partir de um mercado artificial de otários.’’
Entre as dezenas de citações que compõem ‘‘Contra o Brasil’’, está a de Charles Darwin dizendo que os brasileiros ‘‘são profundamente indelicados e desagradáveis; suas casas e suas pessoas costumam ter um aspecto imundo; é raro encontrar a comodidade de garfos, facas ou colheres; frequentemente nós mesmos éramos obrigados a matar os frangos a pedradas para o jantar.’’ Para o personagem Pimenta, Darwin ficou tão impressionado com a grosseria que não utilizou nenhum dos animais estudados em sua estadia no Brasil para desenvolver sua teoria da evolução. Nas ácidas palavras do personagem, ‘‘nossa fauna não têm o menor valor para a história da humanidade’’.
Após queimar os mendigos, Pimenta Bueno parte em busca do elo perdido da nação brasileira, os índios Nambiquaras, segundo o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, um dos povos mais primitivos do mundo. Pimenta segue para o Mato Grosso realizando o mesmo trajeto feito pelo antropólogo na década de 30, que por sua vez seguiu a mesmo trajeto realizado pelo marechal Cândido Rondon nos primeiros anos da virada do século.
Ao encontrar os Nambiquaras, constata que são muito diferentes dos relatos de antigos exploradores e antropólogos. Moram em casas, dirigem jipe e vivem do alimento fornecida por uma madeireira local como forma de suborno. A nova missão de Pimenta é transformar os indígenas em verdadeiros Nambiquaras, uma volta às origens, ao passado original. Nesse processo, acaba por dizimar toda a tribo. ‘‘Os brasileiros fazem o mal mesmo quando tentam fazer o bem.’’
Para o picante Pimenta, Lévi-Strauss só conseguiu dar sentido à sua viagem aos Nambiquaras do Mato Grosso depois de deixar o Brasil. Alguns anos depois, morando nos Estados Unidos, o antropólogo desenvolveu o ‘‘estruturalismo’’, idéia que iria influenciar o caminho das ciências humanas. Segundo Pimenta, o Brasil ‘‘é um país em que as melhores idéias prostam-se diante dos mais primário instintos - têm o poder de dissipar inteligências.’’
No final de ‘‘Contra o Brasil’’, o personagem consegue realizar seu grande sonho, deixar o país para morar na Europa. Mesmo em outro país, não consegue ficar livre do Brasil e o Brasil não consegue ficar livre dele: ‘‘Independentemente de onde eu esteja, sempre irei amaldiçoar o Brasil.’’
Morando fora do Brasil (ironia?) há vários anos, Diogo Mainardi faz da sátira sua arma crítica contra as mazelas da ‘‘pátria amada’’. Em seu romance anterior, ‘‘Polígono das Secas’’ (Companhia das Letras, 1995), dispara suas farpas contra a literatura regionalista brasileira. Considerado um autêntico reacionário por alguns, e o melhor dos escritores satíricos da atualidade por outros, uma das características de sua ficção é a narrativa enxuta, segura no cabresto da caneta.

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