Kraw Penas

Reprodução

Padre Joaquim: pouco ortodoxo, ele é vaidoso, vai à praia, escreve livros e tornou-se a figura mais popular de Matinhos


Ele é um barato. E é um padre. Que, em plena cidade litorânea, consegue arrastar uma multidão de veranistas para assistir às suas missas na Paróquia São Pedro, em Matinhos. As celebrações dominicais são as mais disputadas: centenas e centenas de pessoas chegam a se espremer para ouvir o que o Padre Joaquim Raimundo Braz tem a dizer. ‘‘O povo, hoje, vem ao litoral para ver três coisas: o sol, o mar e o padre’’- diz ele. E para quem acha que falta um cadinho de modéstia, lá vai outra frase dele. ‘‘O padre Joaquim é uma atração turística do litoral paranaense’’.
E ele tem toda a razão. Ir a Matinhos e não conhecer o Padre Joaquim é a mesma coisa que ir a Roma e não ver o papa. A diferença é que o padre é acessível e não se faz de rogado em conversar com que o procura na Casa Paroquial. E não são poucas as pessoas que diariamente vão para conversar ou simplesmente falar um ‘‘oi’’. ‘‘As pessoas vêm buscar palavras de Deus e eu dou’’- diz.
Claro, trata-se de um padre da linha progressista. ‘‘Eu sou apenas um padre que reza a missa como outros padres. Acontece que eu falo a língua do povo. Pra quê usar ‘transubstanciação’ se na missa posso falar ‘consagração do pão’. Alguns padres, infelizmente, ficam presos a rubricas’’- diz. Mas não é apenas o linguajar acessível o motivo de moradores e veranistas de Matinhos irem à missa. Sua perfomance é de um show-man. ‘‘Olha, se eu não fosse padre seria animador de auditório como o Sílvio Santos’’- confessa.
Ah, sim Padre Joaquim é pra lá de carismático. E também vaidoso. No peito, carrega uma reluzente e grossa corrente de ouro com crucifixo. Nos braços, pulseiras. De ouro, obviamente. Suas roupas são de grifes - a maioria presente - bem como os óculos escuros (Armani, diga-se de passagem). No ano passado, por exemplo, ele resolveu dar um trato no visual e fez uma mecha dourada nos cabelos. ‘‘Sou vaidoso, tenho auto-estima. Mas não confundo vaidade com orgulho’’- ensina. ‘‘Se eu me visto assim é porque o povo gosta e exige’’- completa.


Primeiro, os
fiéis levaram
um susto.
Agora, eles
adoram o padre


O padre adora o verão. É brasileiro, né? Por isso, é comum encontrá-lo zanzando pelas ruas de Matinhos apenas de bermuda. Isso quando ele não aproveita as folgas - apertadas folgas - para ir tomar banhos de mar e dourar-se ao sol que arde em Matinhos. Banhos de sunga, é bom explicar.
Pouco ortodoxoQuando chegou a Matinhos, claro, as pessoas levaram um susto com o comportamento pouco - ou nada- ortodoxo do padre. Mas acabaram se acostumando, ou melhor, desviando a atenção para suas atitudes sociais. Sua chegada à cidade aconteceu de forma quase predestinada. O Bispado de Paranaguá havia solicitado ao Bispado de Jacarezinho, ao qual ele pertencia desde sua ordenação, em 89, um padre para tocar provisoriamente as atividades da Paróquia de Matinhos.
E lá foi ele. Era para ficar três meses. Está lá até hoje. E é bom que se diga que a maneira como conduz a Paróquia, as comunidades e respectivas capelas, que vão de Pontal do Sul a Caoibá, tem a total aprovação - e elogios - de seus superiores. ‘‘O povo pediu para eu ficar por aqui e eu fiquei. Eu adoro o lugar’’- avisa.
A aclamação popular se deve principalmente ao fato de ele ter movimentado meio mundo - além de fazer bailes, rifa, bingos e pedágios - para reformar e ampliar a Paróquia da cidade. E conseguiu. ‘‘Tá vendo essa foto? Era a paróquia de Matinhos. Não parecia um caixão de defunto?’’- indaga. O reconhecimento é tanto que, na entrada do templo, foi pintada a imagem do padre.
A repercussão do seu trabalho foi tanta que ele acabou ganhando o título de Cidadão Honorário de Matinhos e até do Paraná. O fato chamou a atenção até da Rede Globo estadual que mandou, há dois anos, um repórter para fazer uma matéria com o padre. Seria uma simples matéria não fosse Padre Joaquim dizer que a igreja, depois de reformada, havia ficado ‘‘ um tesão’’. Resultado: foi parar no programa Fantástico. Ele se explica: ‘‘A vida sem tesão não tem sentido. A gente tem que ter sempre a loucura santa de querer viver de bem com a vida’’ - ensina.
Sucesso literárioA palavra ‘‘tesão’’ o fez conhecido nacionalmente. Cartas e mais cartas chegam de todos os lugares do País e sempre com palavras carinhosas de católicos. Todas são guardadas com muito carinho. Os presentes - que vão de camisas, a perfumes, e até (pasmem) champagne - estão expostos no refeitório da Casa Paroquial. E ele os exibe sem, aparentemente, nenhum orgulho.
Pelas paredes do aposento, fotos, muitas fotos. Uma delas chama a atenção pelo tamanho: ele está ao lado da atriz Luiza Thomé. Pela mesa, outras fotos pequenas ao lado de celebridades como Zezé di Camargo e Luciano, Ricardo Macchi, entre outros. Chega a ser até difícil saber realmente quem é a estrela da foto. ‘‘Para meus fãs eu sou um astro, mas eu não me considero uma estrela não. Estrela é o Papa e o padre Zezinho’’- avisa.
Ele pode não assumir seu lado estrela, mas quem o visita não volta sem uma lembrancinha do padre que vai de um simples cartão postal (com sua foto ao lado da igreja) ou mesmo um ‘‘santinho’’ com seus dados sacerdotais e com uma foto em que ele posa de smoking com gravatinha e faixa vermelhas. Não bastasse tudo isso, o padre é também escritor.
Já escreveu dois livros, tudo bancado pelo próprio bolso. O primeiro, ‘‘Deus é Mãe’’, foi lançado em fevereiro do ano passado e já está na quinta edição. O mais recente - ‘‘Adeus Depressão’’ - saiu do forno em dezembro do ano passado e já está na terceira edição. A obra mais recente é um sucesso editorial, pelo menos em Matinhos. É possível encontrar um exemplar até mesmo em bares e farmácias.
Passa pela cabeça do padre - levemente, mas passa - a idéia de montar uma espécie de grife - provavelmente a PJ - que venderia, segundo ele, tudo quanto é tipo de objeto. ‘‘Do piso ao teto’’- avisa. O dinheiro arrecadado seria investido em obras sociais e também na formação de padres, numa escola particular.
Diz ele:‘‘São planos que não posso colocar em prática agora porque não estou psicologicamente preparado. Tenho coisas mais importantes a fazer. E de mais a mais tenho que ir com calma: tudo que sobe rápido cai rápido’’. Bem, mas se por um acaso ele resolver lançar algo semelhante não se assustem: trata-se de um padre de respeito que está com as melhores das intenções. Que o diga a população de Matinhos e região.

mockup