Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para a Folha2
Abrir um livro de Amós Oz é descobrir um autor que escreve com a vitalidade de um clássico, embora seja nosso contemporâneo de caos geopolítico e moral. Talvez por viver num país cheio de conflitos, mais jovem do que ele próprio, e escrever num idioma ainda em gênese, o hebraico moderno, Amós Oz consegue como poucos escritores atuais misturar em doses harmônicas política e introspecção, fazendo uso, para tanto, de belas metáforas e personagens esculpidos com a paciência de quem escreve uma obra-prima atrás da outra.
Amós Oz nasceu em 1939, em Jerusalém, filho de pais russos. Na louca Palestina ainda ocupada pelos ingleses, Oz teve uma infância difícil. Em 1949, ano da criação do Estado de Israel, sua mãe se suicidou. Aos 14 anos, Amós Oz fugiu de casa para viver num kibutz. Em 1961, depois de ter servido ao Exército, foi mandado a Jerusalém para estudar filosofia e literatura. Depois de formado, Oz retornou ao kibutz onde lecionava numa escola de segundo grau. Em 1967 Oz lutou na Guerra dos Seis Dias, e desde então esteve sempre envolvido com a militância em favor da paz entre árabes e judeus. Atualmente, Amós Oz mora no deserto de Arad e ensina literatura hebraica na Universidade Ben Gurion.
Seu primeiro livro, lançado em 1968, ‘‘Meu Michel’’, editado no Brasil pela editora Summus, foi um estrondoso sucesso de vendas. ‘‘Meu Michel’’ é talvez o livro mais conhecido de Oz no mundo. Vendeu, no lançamento, mais de 100 mil cópias somente no seu país de origem e já foi traduzido para mais de 30 línguas. Desde então Amós Oz escreveu cerca de 18 livros, entre ficção e ensaios, dentre os quais apenas seis foram editados no Brasil: o já citado ‘‘Meu Michel’’ (1968), pela editora Summus, e ‘‘A Caixa Preta’’ (1987), ‘‘Conhecer uma Mulher’’ (1989), ‘‘Fima’’ (1991), ‘‘Não Diga Noite’’ (1994) e o belíssimo ‘‘Pantera no Porão’’, que agora chega às livrarias, todos pela Companhia das Letras.
A ficção de Amós Oz é escrita para leitores maduros, à beira do apodrecimento. Denunciam isto os dramas morais dos personagens, quase todos pessoas que já fizeram todas as escolhas possíveis e cujo destino agora se restringe a julgar a vida vivida, seja pela ótica da política, seja pela filosofia. As crianças de Amós Oz são incrivelmente velhas, sábias e cientes de seu papel no mundo. O que dizer, então, de seus velhos, que, na melhor tradição da narrativa bíblica, são a voz da sapiência? Mas como Oz vive num país atribulado por guerras e atentados, toda esta aura de sabedoria que envolve seus personagens não está necessariamente ligada à tolerância e à justiça. Muito pelo contrário, seus personagens sempre vivem à beira do abismo da moralidade. É por isso que ele escreve para pessoas que já ‘‘passaram do ponto’’, para as quais só resta cuidar para que suas sementes germinem no desértico terreno da mente humana.
Amós Oz eleva ao patamar mais alto o ensinamento de Aristóteles, segundo o qual o homem é um animal político e erótico. Amós Oz jamais abandona o viés das questões públicas: em livros como ‘‘A Caixa Preta’’ e ‘‘Fima’’, a política está enraizada no desenrolar da história, explícita em frases e diálogos contundentes sobre a questão árabe-israelense. Em ‘‘Não Diga Noite’’, porém, a política invade o cotidiano das pessoas de forma muito sutil para o leitor. Não há personagem de Amós Oz alienado do cotidiano violento do seu país, Israel. Todos vivem com intensidade o desenrolar dos conflitos e as negociações de paz. Nas frases há sempre rancor ou comiseração. Até o casamento é visto por Oz como uma extensão dos danos causados pela guerra silenciosa (com estampidos esporádicos, é bem verdade) que se alonga por quarenta anos.
Como todo grande autor, este escritor israelense se atém ao banal para tratar de assuntos de grande porte. É por isso que a simples visão de um cão agonizante pode render especulações sobre a questão do conflito árabe-israelense. Ou então a crise de um casamento pode ser equiparada à longa e inútil negociação de paz que se desenrola nos gabinetes diplomáticos. A vida cotidiana retratada em cores fortes da Israel moderna é a arma que Amós Oz, um pacifista declarado, usa para mostrar que em nada judeus e não-judeus são diferentes, e que se lutam não é pela supremacia da moral mundial, e sim por um simples pedaço de terra de frente para o Mediterrâneo.
Amós Oz jamais é imparcial neste caleidoscópio de religiões e visões geopolíticas. Ele expressa acidamente sua opção pela paz com os árabes. Seu engajamento, porém, nada tem de panfletário: ele se dá através de uma dialética lúcida, entremeada de muita ironia e humor negro.
A candidatura de Oz ao prêmio da Academia Sueca é dada como certa. E como pacifismo casa muito bem com o prêmio oferecido pela fundação ao inventor da dinamite, é possível que Amós Oz leve o prêmio ainda este ano. A maresia do Mediterrâneo começa a carregar consigo, para dentro do deserto, em meio a carros-bomba e discursos acalorados de fanáticos religiosos e entre a resignação dos tolerantes, um cheiro de Nobel para seu mais cultuado escritor, um homem que sabe como poucos manejar a arte belicosa das palavras.O escritor israelense Amós Oz, possível candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, faz de seus livros um libelo pela paz
Agência EstadoAmós Oz sabe manejar como poucos a arte belicosa das palavrasReprodução‘‘Pantera no Porão’’, ‘‘Não Diga Noite’’ e ‘‘Fima’’ estão entre os livros de Amós Oz lançados no Brasil pela Companhia das letras

mockup