Um outro Capote, ainda melhor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Confidencial, em lançamento na cidade (veja a programação de cinema na página 2), é filme injustamente preterido em função de sua aparição depois de Capote. Ambos estão centrados na figura do escritor Truman Capote, ao tempo em que ele produziu sua inovadora obra-prima, A Sangue Frio, relato de um crime hediondo ocorrido no sul dos EUA. Ambos, portanto, são biografias parciais, e convergem suas intenções narrativas para aquele momento em que ele é tomado por uma soma de contradições, em parte produto de suas intenções enquanto escritor, em parte por conta do mundo que descobre ao seu redor. Ficção versus realidade, glamour versus sordidez, cinismo versus romantismo. São estas dualidades que explodem naquela encruzilhada na vida de Capote e produzem uma inesperada, profunda e irreversível guinada em sua existência.
Em 2005 surgiu Capote. O filme, dirigido por Bennett Miller e interpretado por Philip Seymour Hoffman, ficou no imaginário do publico como a biografia oficial daqueles anos-chave na vida do escritor e do processo de criação do livro, marcante e seminal encontro entre reportagem e novela. Hoffman, excelente ator, acumulou vários prêmios pelo papel-título, inclusive o Oscar.
A origem de Confidencial, estreado em 2006, é a biografia de Capote escrita por Georges Plimpton e em grande parte construída por testemunhos de pessoas do círculo mais próximo do escritor. Douglas McGrath, diretor de uma adaptação de Jane Austen (Emma) e outras de Charles Dickens (ôNicholas Nickeby), decidiu fazer um filme que buscasse ampliar a compreensão de Capote, fazê-lo real e ao mesmo tempo convertê-lo também em excelente personagem de ficção.
Filmes baseados em personagens e fatos reais costumam colocar os cineastas em situação no mínimo delicada e sempre complexa. Eles fazem com que o cinema de ficção comece a parecer comprometido com técnicas de não ficção, vale dizer, do documentário. E sem que exista material documental, os fatos, os nomes e as situações partem de acontecimentos verdadeiros. Isto, sem duvida, cria limitações. E destes limites difusos podem ser obtidos tanto bons resultados como o achatamento do relato.
E isto também ocorre e aqui está a maior complexidade com a interpretação. É certo que Hoffman é um grande ator, mas o esforço de Capote para ater-se à realidade nada mais faz do que explicitar que se trata de uma grande atuação, de um talentoso ator fazendo de conta que é Capote, mas não sendo Capote. E é nesta diferença que surge o primeiro e notável ponto a favor de Confidencial. Toby Jones, inglês de 40 anos, é Truman Capote. Se bem que tenha trabalhado em outros filmes (ele foi o elfo doméstico Dobby em Harry Potter e a Câmara Secreta, entre outros papéis bem mais sérios), aqui sua interpretação interage de tal modo com o personagem que o próprio Capote ficaria perplexo se pudesse vê-lo.
Hoffman imprimia algo de sua própria sobriedade, e seu físico não deixou de ser um tanto robusto para o papel. Ao contrário, o miúdo Jones resulta tão real que, mesmo sem conhecermos Capote (a não ser por iconografia), ele parece mais verossímil, mais plausível, mais autêntico. Sua desenvoltura, seu carisma e seu humor constroem uma atuação mais efetiva. Sua entrega acentua os conflitos propostos pelo roteiro, os aprofunda e em conseqüência o desenrolar da narrativa é mais compreensível, mais dramático, mais significativo. É possível, afinal, observar em detalhes a forma como Capote bate de frente com a realidade, aquela realidade que ele tentou buscar para seus livros. Quando a encontrou, teve vida e obra afetadas para sempre.
Embora de fatura independente, Confidencial é filme com formato narrativo clássico, nada pretensioso, carregado de idéias claras e funcional como entretenimento. O time de atores famosos (Gwyneth Paltrow, Isabela Rosselini, Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Daniel Craig, Sandra Bullock, Hope Davis) ajuda a manter o interesse.


