Um Oscar líquido e certo
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segunda-feira, 05 de março de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha 2 

Não foi a melhor das galas. Embora Oscar seja sempre um clássico, a premiação ficou longe de outros anos, bem mais melancólicos. Seja como for, se esperava maior incisão política e menos incenso de Hollywood sobre si mesma. Em noite excessivamente longa mesmo com o jet sky de prêmio para o agradecimento mais curto o ímpeto justiceiro que se viu nos Globos de Ouro contra Weinstein & companhia foi esfriando em banho- maria. Aquele coletivo de atrizes de preto visto em janeiro cedeu lugar aqui a maior dose de glamour e a um clima festivo e descontraído. De qualquer maneira, o anfitrião Jimmy Kimmel sua escolha foi novamente acertada aproveitou seu monólogo de abertura para referir-se aos temas que, desde outubro de 17, estão tentando mudar Hollywood para sempre. Em seu segundo ano como host, Kimmel encaminhou a melhor solução para se reaproximar do momento #MeToo e TimesUp: com empatia e bom humor. Dirigiu tiros certeiros a Weinstein e Mel Gibson, e entregou frases ácidas que serão lembradas quando, por exemplo, o premio completar seu centenário em 2028.
Os latinos arrasaram tudo que havia pela frente, encabeçados pela república mexicana (seria recado da Academia a Trump ?) sob o comando de Guillermo del Toro, melhor diretor por "A Forma da Água" e agora no time de Alfonso Cuarón e Alejandro Iñarritu, e seguido pela estatueta dado à folclórica animação "Vida" e à histórica conquista transexual chilena com "Uma Mulher Fantástica", de Sebastián Lélio, melhor filme em língua não inglesa. A diversidade também marcou presença na temática de "A Forma da Água". Além de Del Toro, os personagens principais são uma descapacitada, um homossexual e uma negra. A protagonista se apaixona por um monstro submarino, fechando o painel das minorias. Ah, e o vilão é branco.

O troféu de melhor filme para "The Shape of Water" veio confirmar o favoritismo que foi crescendo nos últimos meses, mesmo que as apostas indicassem a proximidade de "Três Anúncios para um Crime" afinal recompensado com a justa premiação da melhor atriz (Frances MacDormand) e do ator coadjuvante (Sam Rockwell). Quanto a McDormand, havia duas certezas: de que seria premiada e que, uma vez no palco, ela traria, se não o escândalo, no mínimo uma carga extra de eletricidade, recuperando o dinamismo de uma cerimônia com excesso de cerimônia. E a atriz não decepcionou: chamou às falas todas as mulheres nominadas presentes na plateia e pediu que, de pé, compartilhassem com ela o momento. Seu discurso terminou com um par de palavras misteriosas: "Inclusion" e "rider". A explicação: os atores mais relevantes podem estipular em seus contratos que tanto o elenco como a equipe de um filme podem ser formados por um grupo de pessoas o mais diverso possível.

A Academia só deixou de mãos vazias "Lady Bird" e "Me Chame pelo Seu Nome", distribuindo a premiação ao melhor estilo salomônico. Algumas estatuetas bem atribuídas, outras equivocadas. Como a melhor trilha musical para Alexandre Desplat no filme de Del Toro: o francês se repete cada vez mais, enquanto mais belas e originais partituras como as de Hans Zimmer ("Dunquerque"), Sufjan Stevens ("Me Chame pelo Seu Nome", incluindo aí a melhor canção da série, "Mistery of Love", ignorada), Jonny "Radiohead" Greenwood ("Trama Fantasma") e Carter Burrow ("Três Anuncios...).
De qualquer maneira, mesmo dando um passo atrás em relação a 2017 e ao recente e progressista Globo de Ouro, o Oscar do último domingo está abrindo a sua "cláusula de inclusão", como verbalizou a influente Frances MacDormand. Está procurando lentamente, é certo trazer para sua linha de frente de prêmios a maior diversidade possível. Já não é sem tempo...

Confira a lista dos ganhadores do Oscar
- Filme
'A Forma da Água'
- Atriz
Frances McDormand
('Três Anúncios para um Crime')
- Ator
Gary Oldman
('O Destino de uma Nação')
- Atriz coadjuvante
Allison Janey
('Eu, Tonya')
- Ator coadjuvante
Sam Rockwell
('Três Anúncios para um Crime')
- Direção
Guillermo del Toro
('A Forma da Água')
- Roteiro original
Jordan Peele
('Corra!')
- Roteiro adaptado
James Ivory
('Me Chame Pelo Seu Nome')
- Filme estrangeiro
'Uma Mulher Fantástica' (Chile)
- Animação
'Viva: A Vida é uma Festa'
- Documentário
'Ícaro'


