Um Oscar e cinco mulheres fortes na corrida ao prêmio
De Fernanda Torres a Mickey Madison, passando pela polêmica Karla Sophia Gascón, as atrizes estão no centro das atenções neste domingo especial
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de março de 2025
De Fernanda Torres a Mickey Madison, passando pela polêmica Karla Sophia Gascón, as atrizes estão no centro das atenções neste domingo especial
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Diversos fatores fizeram deste Oscar 2025 a mais acirrada disputa pela estatueta na categoria de interpretação feminina nos últimos tempos. As concorrentes deste ano, cada uma talentosa à sua maneira, deram seu recado de coragem, força, leniência e pertinácia. Beleza e charme. Todos papeis difíceis, alguns mais complexos que outros. mas trabalhados com muita garra, física e mental. Com têmpera de aço. Favoritas? Todas e nenhuma, a depender da torcida de cada espectador, da sentença na cabeça (e no coração) de cada votante da Academia. A seguir, as nominadas da noite deste domingo de Carnaval (2). A começar pela entrada em cena da mais veterana.

DEMI MOORE, 62, americana, atriz estereotipada durante décadas em filmes comerciais e estabelecida no arquétipo da beleza de Hollywood, conseguiu com “A Substância” encontrar a fórmula para reativar sua carreira desaquecida depois de milionário “Ghost” (U$ 12 milhões de cachê) e levá-la de volta ao topo com sua primeira indicação ao Oscar. Indicação por seu papel em um filme que reflete sobre a beleza tóxica de Hollywood a que as mulheres são submetidas quando deixam de parecer jovens na tela.
Poucas atrizes da simbólica fábrica de filmes podem se sentir tão refletidas nesta história quanto Moore: sua extensa carreira inclui sucessos de bilheteria que, apesar de não terem recebido os aplausos generalizados, serviram de precedente para seus colegas abrirem caminho em uma indústria que não é nada amigável com eles. Entre todos os prêmios recentes que vem recebendo por “A Substância” e que a colocam um pouquinho mais na ponta da reta final da disputa, o curioso foi o Globo de Ouro dado em janeiro por sua forte (e sanguinolenta) performance como “melhor atriz de comédia ou musical”...

O jornal estadunidense The New York Times, nas palavras de sua crítica-chefe, Manohla Dargis, descreveu a interpretação de FERNANDA TORRES, 59, carioca, como "bela e devastadora" no filme “Ainda Estou Aqui”, nominado nas categorias de melhor filme, melhor filme internacional e melhor atriz. Para ela, por mais que este universo paralelo de pressões feito de tapetes, holofotes, mídia de toda espécie e pressões desta nova raça, influencers & blogueiros, possa parecer assustador ou intimidante, o que se viu durante toda a campanha já há muitas semanas foi uma Fernanda autocentrada, perspicaz, moderada, elegante e portadora de simpatia permanente. Alguém que, embora ausente deste ambiente competitivo internacional por circunstancias endêmicas e muito particulares do cinema brasileiro, tem intimidade com grandes prêmios desde 1986, quando saiu do Festival de Cannes com a Palma de melhor atriz por seu papel em “Eu Sei que Vou te Amar”, de Arnaldo Jabor.
Do filme muito já se falou e escreveu. Agora com seus cinco milhões de espectadores brasileiros (além do mercado internacional) desde o lançamento, em 7 de novembro de 24, “Ainda Estou Aqui” permanece em exibição informando e emocionando plateias de todo o mundo, denunciando as práticas criminosas da ditadura durante a década de 1970 no Brasil. Um testemunho do que aconteceu e do que só foi oficialmente admitido depois de várias décadas. Um retrato que vai além da família Paiva, ainda que ela seja a síntese perfeita dela. O roteiro também abraça em especial a transformação da vida de Eunice e dos filhos deixados sozinhos. Enfim, o recado foi dado com brilho e muita competência por Walter, Selton e todos da equipe. E especialmente por Fernanda, nosso porta-estandarte domingo no palco do Dolby Theatre.

Convertida em uma das protagonistas da temporada, graças à sua participação na superprodução hollywoodiana que adaptou o famoso musical de 2003, por sua vez baseado na novela “Wicked: Memórias de Uma Bruxa Má”, CYNTHIA ERIVO, 39, inglesa de pais nigerianos, é uma atriz, cantora e compositora que colecionou um punhado de prêmios importantes em 2024, entre eles o Emmy e o Tony, o Oscar do teatro (ela tem notável formação em teatro pela Real Academia de Arte Dramática de Londres). Neste “Wicked”, que também concorre agora ao Oscar de melhor filme, Cynthia interpreta Elphaba, mulher de cor verde que se converte na malvada Bruxa do Oeste, mas que leva em seu interior a semente da revolução contra as injustiças e o sistema ditatorial, mesmo tendo ainda de enfrentar a discriminação, os preconceitos e o racismo sistêmico que impera nesse mundo da fantasia que se converte numa parábola sobre este nosso. Sua carreira tem sido marcada pelo ativismo, tanto pelos direitos LGBTIQ + (é bissexual e de acentuada identidade “queer”) como pelos da comunidade negra.
O problema é que “Wicked” não é algo tão bom assim, musical longo demais e com frequência enfadonho; e o pior, está dividido em duas partes, e a segunda somente chegará às telas em fins de 25. A atriz, em consequência, viu suas chances diminuídas, apesar de inegável carisma, na tela e fora dela – fiquem de olho em Cynthia na chegada à gala e em sua performance no tapete vermelho, onde suas aparições são via de regra ousadas e respaldadas por grandes grifes como Valentino, Vuiton ou Schaparelli.
NO CENTRO DA POLÊMICA

Até as últimas horas, não se sabia se KARLA SOPHIA GASCÓN, 52, espanhola, a primeira mulher transsexual a concorrer ao Oscar de melhor atriz, estará na cerimônia de entrega das estatuetas. A dúvida fica por conta do recolhimento da atriz após polêmica surgida mês passado sobre suas mensagens supostamente ofensivas nas redes sociais, contra muçulmanos, contra a vacinação antiCovid, sobre diversidade nos Oscar.
No momento continua ativa a campanha por seu cancelamento. Por outro lado, ela é ativista dos direitos das pessoas trans, denunciando a violência a que são submetidas. Mas seu maior feito político foi apresentar queixa contra a líder da extrema direita da França, Marion Maréchal, por comentários transfóbicos.
Quanto ao trabalho de Karla como o personagem-título, além da controvérsia das mensagens na Internet, ela ainda enfrenta a sombra de uma concorrência doméstica: Zoe Saldaña. As duas dividiram o prêmio pelo melhor elenco de “Emília Perez” em Cannes, mas o trabalho de Saldaña é muito superior, mesmo sendo coadjuvante (e deve levar o Oscar da categoria). A propósito: gosto muito do filme de Jacques Audiard. Sua maluquice é apenas aparente, uma desculpa para refletir sobre a possibilidade de recomeçar a vida quando o peso do passado é quase insustentável, isto valendo tanto para os dois segmentos, tanto para trans como para traficantes.

Com um notável e intenso trabalho na Palma de Ouro “Anora”, MIKEY MADISON, 25, americana, pode ser a grande surpresa na noite de domingo. A Anora-Ani criada por ela é personagem muito importante no roteiro, mas não o único. Aquele engraçadíssimo núcleo de trapalhões russos a serviço de certa milionária oligarquia funciona também à perfeição na brilhante comédia dirigida pelo indie Sean Baker. Mas é Ani-Mikey Madison quem praticamente impõe e direciona o ritmo de quase nonsense imprimido ao filme. A personalidade da atriz trabalha a personagem e vai colorindo a narrativa, a princípio com as cores da libertária vida da sonhadora dançarina e trabalhadora do sexo, vulgarmente conhecida como prostituta.
Você com certeza viu o filme, afinal era um Tarantino. Há seis anos você a viu (embora rapidamente) em “Era Uma Vez em Hollywood” como um membro da fatídica família de Charles Manson. E antes ela esteve em vários títulos de curtas metragens, em filmes menores de terror e em algumas serie de TV. Mas deve voltar às telas muito em breve, usufruindo as muitas premiações que “Anora” já lhe proporcionou. E patriotismo à parte, pode render mais um.
* Atualizada.


