Sorte de Academia: ‘‘Uma Mente Brilhante’’ salvou a pátria na reta final, quando já morriam as últimas esperanças de aparecer uma produção que lavasse a honra da indústria de entretenimento mais poderosa do mundo. É só cotejar os outros títulos nominados na última terça-feira para a corrida que termina na noite do dia 24 de março. ‘‘Moulin Rouge’’? Indigesto para o paladar conservador de boa parte dos votantes, nostálgicos da padronagem clássica da era de ouro do gênero. ‘‘Entre Quatro Paredes’’? Intimista e independente além dos padrões toleráveis de um, digamos, ‘‘Beleza Americana’’. ‘‘Assassinato em Gosford Park’’? A crítica postura de independência de Robert Altman em relação aos grandes estúdios americanos é sempre difícil de engolir – mas num paradoxo típico do circo hollywoodiano, Altman pode até levar o prêmio como melhor diretor, repetindo o reconhecimento da imprensa estrangeira no Globo de Ouro. E ‘‘O Senhor dos Anéis’’? A obra-prima de Peter Jackson, pela ousadia e intenso brilho da adaptação da monumental obra de Tolkien, entre muitas outras qualidades, mereceria o reconhecimento máximo, mas é pouco provável que um trabalho realizado em outro continente sensibilize o colégio eleitoral.
Resta, portanto, ‘‘A Beautiful Mind’’, um filme sobre um gênio mas não um filme de gênio. Visceralmente americano no fundo e na forma, um trabalho que parece de fato moldado para caber na estatueta. Cinebiografia tão permissiva quanto o original em que se baseou – a escritora Sylvia Nasar declarou que seu livro era ‘‘muito mais uma dramatização altamente estilizada do que uma reconstituição literal’’ – , ‘‘Uma Mente Brilhante’’ reconta a trajetória de John Forbes Nash Jr. (Russell Crowe), inteligência ao mesmo tempo fulgurante e atormentada que chegou ao Prêmio Nobel de Economia em 1994. A narrativa abre em 1947 em Princeton, onde acaba de chegar ‘‘o misterioso gênio de Virgínia’’, o jovem Nash, precoce, introvertido, arrogante (‘‘não gosto de gente’’, diz ele ao colega de quarto e amigo Charles) e desajeitado candidato a figurar entre a elite das esperanças de sua geração. A especialidade? Matemática superior. Ambicioso, ele pretende descobrir uma teoria original que conduza ao topo. Colocando sua inspiração na natureza e nas formas que o cercam, Nash desenvolve uma espécie de ‘‘teoria dos jogos’’ que subverte as sacrossantas teorias econômicas de Adam Smith.
Mas é seis anos mais tarde, no prestigioso MIT (Massachussets Institut of Technology), com o talento reconhecido e professor respeitado, que Nash vai estabelecer duas conexões que vão determinar o rumo de sua vida. Uma, com atividades ‘‘top-secret’’ de segurança envolvendo matemática e códigos secretos; e a outra com uma de suas alunas, a bela Alicia (Jennifer Connely) com quem acaba se casando. Em pouco tempo, uma poderosa esquizofrenia paranóide ocupa boa parte da mente de Nash, num atormentado, catastrófico processo que vai acompanhá-lo por muito tempo, cerca de três decadas.
Nenhuma dúvida de que tal matéria-prima poderia render um grande filme. E de fato há muito o que admirar em ‘‘Uma Mente Brilhante’’, mas menos do que o roteirista Akiva Goldman e o diretor Ron Howard acreditam que o filme teria. Um ‘‘autista’’ social dotado de ilimitado gênio matemático, mais poeta que burocrata: este um argumento fascinante, sem dúvida. Sobretudo porque o gênio em questão realmente existiu e ainda vive. Some-se a este pressuposto um elenco liderado por Russell Crowe e coadjuvado por Ed Harris e Jennifer Connely, mais a direção ‘‘limpa’’, correta de Howard, e se obterá o principal para um grande filme ‘‘oscarizável’’. Esta formulação, esta combinação de laboratório, esta milimetrada pré-fabricação é que incomoda.
Dividido em duas partes, ‘‘A Beautiful Mind’’ tem como marco divisório uma revelação importante. Nada assim tão surpreendente, mas algo assim construído sobre um clássico esquematismo. A finalidade: aumentar o suspense, ditar o ritmo à história e sobretudo segurar toda a atenção do espectador. O problema, no caso, é que esta reviravolta de situação, em vez de aumentar o interesse, acaba diminuindo. Talvez Howard tenha levado o esquema hollywoodiano muito longe – sabe-se que o diretor não se cansa de pedir em entrevistas que a imprensa e o publico mantenham sigilo sobre o ‘‘segredo’’ do filme, a fim de não seja minimizado o ‘‘impacto dramático’’ da revelação. Ora, esta é uma atitude quase tão paranóica quanto a de Nash, e bem elucidativa sobre o processo criativo de Howard, um diretor que jamais soube ir além da partitura, não improvisando em nenhum de seus filmes, não importando o potencial deles. Note-se: não é uma direção burra ou desprezível, pelo contrário: para os padrões hollywoodianos médios em vigor é só o qua a indústria pediu a Deus. Mas é uma direção abaixo das potencialidades criativas que o argumento oferecia.
Abstraídos os excessos da síndrome de ‘‘Rain Man’’, Russel Crowe entrega uma interpretação complexa e intrigante, coadjuvado com segurança pela bela Connely e pelo sempre sólido Ed Harris.

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