O generalista culto sempre foi a glória de nossa imprensa, notou certa vez Paulo Francis. Hoje, quando tanto se fala da precária formação dos novos jornalistas, o que era considerado um espécime em extinção parece ter voltado às páginas das publicações.
Daniel Piza é um notável exemplo. Há 5 anos, ele mantém uma coluna de crítica cultural cuja atuação já rendeu-lhe a fama de herdeiro de Francis. Agora, a exemplo de outros pares, ele decidiu reunir suas reflexões em livro. O resultado é ‘‘Questão de Gosto – Resenhas e Ensaios’’ (Record), uma estimulante seleção de textos publicados originalmente no caderno ‘‘Fim de Semana’’ da Gazeta Mercantil e nas revistas Bravo! e República.
‘‘Nesses lugares tentei tratar da cultura com um olho na herança e outro no presente, pois sem este jogo não se pode falar em formar um gosto individual, em cultivar a sensibilidade crítica – em combater a passividade, mal dos tempos atuais’’ – escreve ele na introdução. O próprio exercício da crítica é tratado em um dos blocos temáticos do volume, no qual Piza questiona uma série de lugares-comuns que cercam o métier, além de trazer perfis de figuras de proa como H.L.Mencken, Edmund Wilson e Robert Hughes.
‘‘É uma luta inglória, quem sabe perdida, a de defender a crítica e, especialmente, os críticos’’ – observa ele. ‘‘No Brasil – onde o medo de emitir opinião é tão arraigado que só deixa espaço para o silêncio ou o achismo –, o posicionamento a esse respeito é ainda mais temerário. Mesmo porque os críticos, quase sempre, têm sido apenas sujeitos que confundem lanterna com farol mas continuam perdidos’’.
O livro apresenta ainda textos divididos entre os tópicos Costumes, Interpretações do Brasil, Literatura Brasileira e Portuguesa, Literatura Internacional, Artes Visuais Brasileiras, Artes Visuais Internacionais, Crítica e Jornalismo, Miscelânea e Aforismos sem Juízo. A vocação polêmica do autor aparece logo nas primeiras linhas, quando ataca a ‘‘falácia do entretenimento’’, um ardil que relega a arte à condição de passatempo.
Prossegue nas páginas seguintes. ‘‘A verdadeira contracultura é a assim chamada alta cultura’’ – proclama na abertura de um texto. ‘‘É ela que desestabiliza o senso comum de forma coerente e durável, preservando a importância das idéias e dos talentos, únicas manifestações capazes de atravessar fronteiras no tempo e no espaço. Outras podem nos divertir e até mesmo ensinar, mas só ela pode nos despertar do banal’’.
Quanto à contracultura, na acepção formulada durante a efevescência dos anos 60 e 70, diz que seu erro básico foi ter ‘‘pôsto ênfase excessiva no comportamento e, corolário, terminou alimentando o consumismo, endossando a comodidade da classe média e ampliando esse cada vez maior cartel do entretenimento’’.
Também controverso é o artigo ‘‘Mitos Paralisantes’’, no qual critica Caetano Veloso a partir de uma interpretação de seu livro ‘‘Verdade Tropical’’. Piza enquadra o compositor baiano entre os representantes ilustres de uma certa patologia egocêntrica que infesta a cultura brasileira e que inclui nomes como Hélio Oitiçica, José Celso Martinez e Haroldo de Campos.
O comportamento de Caetano, por exemplo, seria exemplar do fenômeno. ‘‘Ele abona aquilo que considera o melhor da nova geração, deslanchando carreiras com seu mero beneplácito; ataca furiosamente os que o criticam, usando não raro as armas mais baixas; faz ação-entre-amigos para se proteger, garantindo acolhida ampla e irrestrita nos órgãos de imprensa que elege para tal tarefa; propõe-se como síntese final, falseando sua força de originalidade – até mesmo com a falsa modéstia – e reescrevendo a história sob seu prisma único’’.
Mais adiante, Piza esboça um balanço das artes visuais contemporâneas. Numa resenha de livros que tratam do assunto, introduz o leitor a um pavilhão da Bienal de Veneza de 1999 onde foram expostas telas ‘‘pintadas’’ por um elefante e fotos ‘‘feitas’’ por um macaco. ‘‘Piada de filisteu?’’ – pergunta ele, para sem seguida desfiar uma avaliação certeira da Mostra:
‘‘Salvo curadores e marchands, que dependem disso para viver, além dos próprios artistas, ninguém mais aguenta. O incauto pergunta: ‘‘Mas isso é arte?’’ E as pessoas instruídas na arte do século, em sua história e teoria, perguntam: ‘‘Mas isso é tudo?’’ Pois é difícil encontrar uma obra de arte – seja instalação, fotografia, vídeo e pintura – que não passe de um trompe l’oeil, de um truquezinho, de um trocadilho visual ou cênico cuja graça não dura um segundo. As perguntas são diferentes, mas a resposta é a mesma: Quanta picaretagem!’’.
Neste bloco, Piza discute ainda os legados de Jackson Pollock, Marcel Duchamp, Hopper & Balthus, Miró, Henri Matisse, Pablo Picasso, Cézanne, Paul Gauguin, Degas, Rembrandt e Diego Velásquez. O volume, todavia, é mais generoso com a literatura dedicando-lhe mais da metade dos textos. A lista de autores discutidos inclui James Joyce, Rimbaud, T.S.Eliot, Flaubert, Kafka, Shakespeare, Scott Fitzgerald, Thomas Mann, Philip Roth, Nabokov e John Keats. Ao final, Piza abre o leque temático falando também de Pelé e Ronaldinho.

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