Muito além de um grande sedutor - esse subtítulo já mostra a que se propõe Ian Kelly em sua biografia de Giacomo Casanova. Kelly deseja mostrar que o veneziano, o mais perfeito símbolo do maratonismo sexual, tem muito mais a oferecer ao distinto público do que suas façanhas de alcova. Que nem foram tantas assim.
O próprio Casanova ficaria pasmado se pudesse adivinhar que passaria à posteridade, principalmente em filmes, por sua trajetória sexual. Era muito mais que um vulgar colecionador de conquistas. Intelectual requintado e de saber enciclopédico, sabia música, dominava a literatura do seu tempo, exercitava-se na alquimia e na cabala, foi maçom, passou por médico e curandeiro espiritual.
Escreveu 42 livros, traduziu a ''Ilíada'' de Homero do grego para o italiano e deixou um romance de ficção científica em cinco volumes. E, claro, já que ninguém é de ferro, dormiu com algumas das mulheres mais belas do seu tempo.
A trajetória descrita no livro 'Giacomo Casanova - Muito Além de Um Sedutor', é a de um aventureiro. Filho de uma atriz conhecida, criou-se em sua Veneza natal mas transformou-se em viajante obsessivo. Trocava de endereços como de amantes. Viajou por toda a Europa. Onde havia uma corte, e onde era possível encontrar um rabo de saia, ali Casanova se sentia em casa.
Seu currículo amoroso contabiliza pouco mais de uma centena de conquistas, 122 para ser exatos. Ter dormido com centenas ou milhares de mulheres não faria de Casanova um personagem marcante. Mas ter escrito sobre essas experiências, e da maneira como o fez, sim. Como mostra Ian Kelly, o relato de Casanova, seu estilo e agudeza, tornou-se fonte preciosa de conhecimento sobre a sexualidade do século 18, a mentalidade do Ancien Régime e o comportamento de vários estratos da sociedade, e não apenas na alcova.
Doente, isolado e ridicularizado nos anos finais da vida, Casanova prescreveu a si mesmo o único medicamento possível - escrever. Ao morrer, em 1798, deixou uma impressionante papelada, inclusive as 4 mil páginas de ''A História da Minha Vida'', em francês, que só começaram a ser publicadas em 1822. São páginas muito vibrantes, que dizem que a vida é curta, bela e é preciso aproveitá-la enquanto dura.

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