Crianças brincam de esconde-esconde, um agricultor semeia a terra, a família se reúne para o almoço. A vida é simples ou é o olhar que a retrata assim? E que olhar é esse? Em ''Haruo Ohara'', o cineasta Rodrigo Grota apresenta ao público a essência do maior fotógrafo da história de Londrina. E essa essência é a harmonia. Não aquela ocidental, apresentada como a ausência de conflito, mas a oriental procura pelo silêncio, pelo vazio.
''Haruo Ohara'' completa a Trilogia do Esquecimento, junto com os premiados ''Satori Uso'' e ''Booker Pittman''. O curta-metragem de 17 minutos mescla cenas cotidianas, vídeos caseiros, em que o fotógrafo aparece (feitos pelo filho, Sunao), e paisagens quase abstratas em sua beleza (graças à fotografia de Carlos Ebert e à direção de arte de José de Aguiar). O filme é uma produção da Kinoarte com patrocínio do Ministério da Cultura.
Sem um enredo linear, sem diálogos (exceto em um depoimento histórico de Haruo, as poucas falas em japonês nem carecem de tradução) e principalmente sem aquele conflito dramático (tão essencial em Booker e em Satori), o curta mantém ainda assim a coerência e a sensibilidade, capazes de cativar o público. E é impossível não identificar a estética e a linguagem de Grota em momentos como quando fotografias se sobrepõem rapidamente (feito os rostos nas janelas de um trem que passa à sua frente) ou no encontro do fictício poeta Satori Uso e do pioneiro Hikoma Udihara com um documental Haruo.
Encarnado por Marco Hisatomi, o fotógrafo aparece, em boa parte do curta, em sua exaustiva procura pelo ângulo, luz e enquadramento ideais. E, ao apresentar um olhar sobre essa rotina, o diretor nos transmite o próprio olhar do fotógrafo.
Nesse ponto, o filme tem o mérito de não competir com as belas fotos de Haruo (autor de 20 mil negativos em 50 anos), não se limitar a reproduzir ou recriar as imagens e ao mesmo tempo dialogar com elas, principalmente a partir da segunda metade do curta, quando se torna ainda mais explícito o processo de composição de Haruo.
Enfim, o filme mostra que as fotografias estavam lá, desde o início. No cesto de milho, no amanhecer na lavoura, na brincadeira das crianças. E fica muito claro que apurar o olhar para enxergar tudo de forma tão simples demanda muito. Demanda harmonia - eis o complexo conflito de ''Haruo Ohara''.

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