Um olhar sobre as meninas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de junho de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Para muitos diretores, o documentário é a menina dos olhos do cinema, um gênero onde muitas vezes é possível aliar a arte com a responsabilidade social. A opção de transformar o documentário em um instrumento de alerta para a sociedade foi tomada pela diretora Sandra Werneck. Depois de filmar o premiado Cazuza O tempo não pára (2003), ela decidiu retomar o gênero em que começou a carreira e embrenhou-se no projeto Meninas, que chega às telas agora. O documentário parte da vida de quatro adolescentes da periferia do Rio de Janeiro que têm uma coisa em comum: a gravidez.
As meninas têm entre 13 e 15 anos, moram em favelas cariocas e tiveram acontecimentos das suas vidas filmados desde que descobriram que estavam grávidas. Elas foram escolhidas depois de uma extensa pesquisa realizada em todo o Brasil. Foram entrevistadas meninas em São Paulo, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Minas Gerais, mas por uma questão de praticidade e dinheiro as quatro garotas selecionadas moram em favelas cariocas. Essa escolha aconteceu porque queríamos acompanhar de perto a gravidez dessas meninas, conta Sandra em entrevista ao Folha 2.
A diretora explica que a equipe de produção chegou a entrevistar meninas de classe média também, mas a opção ficou com a periferia. Não queríamos que elas ficassem rotuladas pela classe social, queríamos falar de um universo em comum, salienta. O filme teve orçamento de R$ 800 mil e as filmagens começaram em 2004. Uma das dificuldades da produção, além do orçamento considerado restrito para uma filme desse porte, foi exatamente vencer a barreira da timidez das famílias das meninas e tentar uma intimidade que permitisse contar a história de cada garota. Conseguimos isso devagar, aos poucos. Dá pra notar que no início do filme elas estão mais tímidas, mas depois começam a se familiarizar com a câmera, diz a diretora.
Para colher as informações, fazer as pesquisas e entrevistar as meninas, Sandra teve ajuda da também cineasta Gisela Camara. As quatro meninas foram selecionadas por representar uma situação bastante comum no universo pesquisado. A mais nova das garotas, Evelin Rodrigues dos Santos, tinha 13 anos quando engravidou, na época das filmagens. Parou de estudar na quinta-série e o pai do seu filho tinha envolvimento com o tráfico de drogas. Por isso, nas filmagens, só aparece de costas. Três meses depois que o filme acabou ele foi morto em um confronto com a polícia.
Edilene Ferreira da Silva, tinha 14 anos quando participou do filme, o namorado engravidou ao mesmo tempo uma outra garota, de 15 anos. A menina, chamada Joice, também vivia com a mãe e interrompeu, com a gravidez, o sonho de entrar para a Marinha. A quarta garota, Luana, de 15 anos, tem outras quatro irmãs. Foi a única a declarar que a gravidez foi planejada. A justificativa? Cuidou das irmãs e queria um bebê só para ela.
Um futuro melhor, uma escola, uma profissão. Tudo isso está tão longe da vida dessas meninas que elas optam por ter um filho para ganhar auto-estima, para se afirmar perante a sociedade, analisa Sandra. Essas e outras questões aparecem na subjetividade do documentário e, principalmente, na ausência de ação, uma opção da diretora. Esse nada que acontece na vida delas é muito perturbador, argumenta. Ela compara com meninas de uma classe social mais abastadas, que tem seu tempo ocupado pela escola e esportes. Para as meninas do filme, isso não acontece. Elas não fazem nada, a não ser esperar, revela.
Meninas já foi exibido em vários festivais internacionais. Estreou no Rio de Janeiro - onde também foi exibido em escolas - São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Hoje estréia em Curitiba e Salvador, antes de ser exibido em Nova York e na França. Enquanto cumpre agenda de exibição, a diretora já pensa no seu próximo projeto Outras meninas. O novo longa de ficção será baseado no livro As meninas da esquina, de Eliane Trindade, que trata da prostituição, abuso sexual e relações familiares. A diretora já está trabalhando no roteiro do longa, que deverá ser filmado em 2007.


