UM OLHAR SOBRE A ÍNDIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> De Veneza <br> Especial para Folha 2 
Nenhuma surpresa, na revelação do principal prêmio da recém-encerrada 58 Mostra Internazionale de Arte Cinematografica de Veneza. Não que o candidato da India, ''Monsoon Wedding'', fosse o destacado favorito. Nenhum filme era, em típica temporada de entressafra. Assim, outra meia dúzia, ou até mais, poderia ter recebido o reconhecimento máximo, e não faria maior diferença. Mas pela expressão contrariada do presidente do júri, Nanni Moretti, no momento de anunciar o Leão de Ouro, o consenso passou ao largo das decisões. Menos mal: os jurados acabaram premiando um filme mais aberto, menos ''festivaleiro'' e de apelo popular mais amplo. Universal, em todos os sentidos - já está inclusive comprado para o mercado brasileiro e provavelmente seja o indicado da Índia para concorrer a uma vaga na briga pelo Oscar de melhor estrangeiro.
Exibido logo no segundo dia do festival, ''Monsoon Wedding'' caiu na simpatia das platéias que lotaram as quatro exibições oficiais. Primeiro oásis no rarefeito deserto de violência e desespero que tomou conta dos filmes de abertura da mostra competitiva, esta movimentada comédia de costumes - aqui e ali com tempero de drama - se apoia nos quatro dias de preparação e na festa de casamento em uma família burguesa de Nova Delhi (a cidade da diretora Mira Nair) para elaborar um mix entre tradição e modernidade. Presentes as consequências da emigração frequente (para a Austrália, para os EUA), a persistência dos casamentos arranjados e das diferenças de castas, os sentimentos familiares e a violação dessa harmonia, a metrópole desfeita, o temperamento expansivo do povo do Punjab, o papel da mulher solteira na sociedade da Índia. O resultado é um filme heterogêneo e sensual, de tradições localizadas e de cultura global. Um caldeirão onde cabem citações diversas, de ''O Pai da Noiva'' a Kusturica, passando por Robert Altman e Fellini. Cinco histórias se intercalam, cinco maneiras diversas de contar e interpretar o amor segundo diferenças culturais, sociais e morais. Otimista e sentimental, leve, divertido, amável e ao mesmo tempo sério, ''Monsoon Wedding'' é o meio termo entre a globalização e um desejo secular de resgate.
Na manhã do último dia do festival, a Folha encontrou por acaso a diretora Mira Nair, que ainda não sabia que algumas horas mais tarde estaria recebendo o Leão de Ouro por ''Monsoon Wedding'' (''Casamento durante as chuvas de monção'', em tradução literal). A entrevista não poderia ser mais singular. Acompanhada por alguns atores e familiares, Mira passeava tranquilamente de ônibus pelo Lido de Veneza, a ilha onde acontece o festival e única em toda a laguna veneziana em que há trânsito normal de veículos. Feitas as apresentações, a conversa começou ali mesmo, de pé, e prosseguiu três paradas adiante, todos andando pela calçada. Dentes perfeitos em sorriso que nunca se despede, bonita, elegante, suavemente matronal em típica túnica coberta por um kaftan, Mira Nair é uma mulher com dois belos olhos quase verdes e bem abertos, um para os contrastes da Índia natal, outro para o cinema que busca a universalidade.
Seu filme conta a história de uma família classe média alta, burguesa, coisa que não estamos muito habituados a ver nos filmes indianos, sempre mais voltados à pobreza e ao sofrimento. Por que a senhora escolheu este tema?
Venho do Punjab, somos um pouco como vocês brasileiros: amamos a vida, a diversão, a música, a boa comida, ainda que se trabalhe bastante. Tentei capturar este espírito para contar a Índia contemporânea. A Nova Delhi de hoje é um universo bizarro, globalizado, onde tradição modernidade estão em conflito, onde grifes famosas do Ocidente convivem com trânsito congestionado e blackout. Esta é a minha Índia, onde cresci. E quis observar também a família, fundamental para nós, com uma burguesia que recebe aqueles que estão dando o salto da classe operária.
O fato de os personagens falaram em indi, mas também em inglês, é por causa do mercado internacional?
Em Nova Delhi, nas famílias burguesas, é assim, falam todos ''indenglish'', um misto das duas línguas. É também uma prova de que para nós a globalização já chegou.
Mas nessa Índia ''globalizada'', como a senhora diz, ainda permanecem os casamentos combinados...
É verdade, mas ninguém força os noivos: casam porque querem. Na Índia, a idéia da família é fundamental. A protagonista do filme não é forçada a casar mas aceita, porque acha que a família faz a coisa certa para ela. E além disso os casamentos arranjados resultam melhores do que aqueles por amor. Ou pelo menos duram um pouco mais.
Alguma coisa de autobiográfico no casamento do filme?
Sim, de certa forma sim. As coisas não foram muito diferentes. E por isso os vestidos, os objetos, a decoração, veio tudo da minha família. Mas no meu casamento havia poucas pessoas, uma sobrinha leu um poema e foi só.
O realismo é mesmo importante para o seu cinema, isto está bem claro em ''Monsoon Wedding''.
Sim. Ao contrário do que faz o cinema indiano, que tende sempre a fugir da realidade, eu tratei de captá-la, inclusive para uma melhor compreensão. Para isso cheguei a pensar em filmar em vídeo digital, mas achei que não teria conseguido traduzir a opulência noturna de nossos casamentos. Mas obtive o mesmo efeito com uma super 16 milímetros quase sempre na mão, também pequena e muito ágil. Por isso foi possível filmar em apenas 30 dias.
Então a senhora descarta o estilo ''Bollywood''? (NR: um tipo de cinema de evasão atualmente em alta na Índia, realizado nos estúdios de Bombaim com pretensões hollywoodianas)
Quando era jovem eu o esnobava mas agora o adoro, é parte integrante de todos os indianos, sem distinção de classe. Minha família me suplica para que eu faça ''Bollywood'', e cedo ou tarde vou fazer.
Depois de ''Kamasutra'' (NR: ''Fogo e Desejo'', a tradução brasileira), de 96, não se teve mais notícias suas.
Fiz um outro filme, o documentário ''My Own Country''. Também tenho uma família, e vez ou outra tenho que estar com ela. Este ano pouco, devo confessar, por isso alguns estão aqui comigo em Veneza. Acabo de filmar para a HBO a minha estréia no cinema americano, ''Hysterical Blindness'', com Gena Rowlands e Uma Thurman como mãe e filha à procura de amor.


