UM OLHAR SOBRE A CONTEMPORANEIDADE
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de dezembro de 2001
Zeca Corrêa Leite<bR>De Curitiba 
A contemporaneidade é um traço marcante nas artes plásticas do Paraná, bradam os defensores contra aqueles que pensam o contrário. Fazendo parte do coro a favor está o diretor do Museu de Arte Contemporânea, de Curitiba, João Henrique do Amaral. Atarefado com as intensas atividades nestes dias que antecedem à abertura do 58º Salão Paranaense, marcada para quinta-feira 19, Amaral ainda assim encontrou tempo para falar do salão com a Folha2.
Ele é um apaixonado pelo acontecimento que todo ano movimenta o meio artístico. Mistura a tradição histórica com os últimos premiados, compara-o a eventos de outros Estados, analisa semelhanças e diferenças para, finalmente, concluir sem demérito a ninguém que todos, bem ou mal, se espelham no Salão Paranaense.
A importância do evento pode ser avaliada pelo peso que empresta ao currículo dos artistas, raciocina o diretor do MAC. Um salão que se mantém há quase seis décadas sem perder o símbolo sinalizador das artes, tem inquestionável solidez, na opinião do orgulhoso Amaral. Sobre a temporada que abre na quinta-feira, é enfático: ''A mostra estará muito bonita, com alto astral. Vai contribuir para um bom final de ano e início do outro que nasce''.
O Salão Paranaense está caminhando para ser sexagenário. Há perigo dele envelhecer?
Não acredito no envelhecimento do Salão Paranaense. A cada ano ele apresenta jovens com propostas audaciosas, instigantes e os jovens de dez anos atrás, que também apresentavam propostas curiosas, são hoje artistas com uma trajetória nacional bastante significativa. Num rápido momento posso lembrar que Brugnera foi premiado no Salão Paranaense há pouco tempo e hoje é um dos nomes importantes do cenário nacional. Eliane Prolik, na década de 90, inaugurou com premiação sua; José Antonio de Lima, idem. Enfim, tem um número muito grande de artistas que vão revigorando a jovialidade do Paranaense.
É uma tradição?
Sem dúvida. Tivemos outros jovens como Juarez Machado, Ianelli, Tomie Ohtake. Eles foram premiados aqui e têm no currículo essa passagem. Vamos convir que ter um dado desses no currículo de qualquer jovem artista é um dado relevante e valorizador.
O Salão deste ano tem uma marca, uma característica a ser apontada?
Sim, neste ano por inspiração da secretária da Cultura, Monica Rischbieter, fizemos uma medição do olhar crítico paranaense. O que isso quer dizer? Diferentemente de outros anos chamamos pessoas do Paraná para que fossem do júri. Então pudemos contar com a experiência sempre surpreendente de Violeta Franco, o professor Fernando Bini, que é um dos responsáveis pela educação do olhar de educadores artísticos, desenhistas industriais entre outros, Nilza Procopiak que é uma das articulistas mais conceituadas do Paraná, o jovem crítico Rubens Pillegi trazendo um olhar também novo, e o paranaense radicado no Rio de Janeiro, Walton Hoffman.
Isso quer dizer o quê?
Quer dizer que a grande referência do 58º Salão Paranaense é justamente o olhar paranaense colocado à prova. E o que aconteceu? Tivemos um júri extremamente rígido. Não podemos dizer que eles tenham sido nem um pouco paternalistas, bairristas. Pelo contrário, tivemos, isto sim, uma visão cosmopolita de arte surpreendente, ousada à medida que premiaram, por exemplo, Cleverson Salvaro, artista muito jovem que apresentou uma proposta de educação do olhar.
Do material enviado pelos artistas que leitura se faz da atual produção artística brasileira?
Que existe uma pesquisa muito acirrada no tridimensional, seja escultura, quanto objeto e instalação, e uma tendência a um certo humor, apesar de não ser nada escrachado. Existe humor no sentido do insólito das coisas, como a escada que não leva a lugar nenhum, do Brugnera. Também a cor tem sido um dado importante, há uma curiosidade grande em relação à cor. E ainda temos a fotografia como base para novas pesquisas.
Humor, cores indicam que o brasileiro, apesar dos pesares, é feliz?
O brasileiro é um otimista crônico, é impressionante. Sempre ele é o punido, tiram seu dinheiro e ele continua sendo um colaborador dos governos na tentativa de dirimir os problemas. Ele tem esse fogo em acreditar que o País vai para a frente, independente de quem está no poder. Por isso é que o Brasil é colorido, e as coisas mau-humoradas acabam sendo inferiorizadas por uma alegria quase cósmica. O Salão Paranaense reflete esse sentimento na arte do brasileiro.


