Curitiba A expressão ''Coração do Brasil'' é uma alusão ao formato do mapa do País, mas também pode significar o retrato sentimental de uma pessoa em relação à diversidade característica das regiões brasileiras. A pessoa em questão é o fotógrafo Orlando Azevedo, que na companhia do jornalista Fabiano Camargo passou quase dois anos viajando pelo País. Nesse período, captou imagens inusitadas que refletem uma visão singular ou simplesmente retratou a realidade encontrada.
Foram mais de 70 mil quilômetros percorridos e cerca de 50 mil fotos produzidas, que fazem parte do projeto ''Expedição Coração do Brasil''. Pelo menos 500 imagens dessa série podem ser vistas a partir de hoje, na Casa Andrade Muricy, em Curitiba.
Azevedo não nega que as imagens que compõem a mostra são uma visão pessoal. Passam longe de uma perspectiva turística, ufanista, do País. ''É uma releitura parcial de um fotógrafo que saiu pela estrada'', diz. Projeto antigo do fotógrafo português radicado em Curitiba, a peripécia começou a ser desenhada em meados da década de 90. Nesse período, ele tinha como parceiro o alpinista Valdemar Niclevicz e a expedição estava restrita ao tema ''cidades de pedra''. Passando o tempo, Azevedo percebeu a limitação da temática e pensou além.
Compromissos firmados à época com a Fundação Cultural de Curitiba, porém, funcionaram como uma âncora aos projetos pessoais de Azevedo, que passou a atuar mais como empreendedor do que como fotógrafo. Foi quando conheceu o jornalista Fabiano Camargo. A amizade e a afinidade de idéias impulsionou o projeto, que começou a ser desenhado no formato atual. Percorrer as regiões do País, registrando em fotos e textos o patrimônio humano, cultural e natural do Brasil era o principal objetivo.
A viagem começou em abril de 1999 e terminou em julho deste ano. Mas não foi ininterrupta. A barreira, como a que se vê em quase todos os projetos culturais brasileiros, foi a falta de recursos financeiros. Primeiro os parceiros tiveram que enfrentar a dificuldade de captação para viabilizar o projeto pela Lei Rouanet e o proposta contou apenas com parcerias privadas e recursos próprios. Viajavam em uma Toyota 86, que segundo conta o fotógrafo, quebrava em cada parada. ''Foi um sacrifício'', brinca.
Depois de percorrerem metade do percurso final, Azevedo e Camargo voltaram para Curitiba, onde vivem atualmente. No ano passado, conseguiram finalmente a contrapartida do Programa Conta Cultura, programa estadual que viabiliza o patrocínio de projetos já aprovados pela Lei Rouanet, e voltaram para estrada. Dessa vez com uma Land Rover caracterizada, que sem dúvida facilitou a trajetória percorrida.
Uma das dificuldades, aliás, conforme revela o fotógrafo foi atravessar as estradas em péssimas condições. Obstáculos que foram compensados com as imagens tanto exuberantes como surreais que Azevedo colheu pelo caminho. Na mostra da Casa Andrade Murcy, o fotógrafo dividiu as imagens em três temáticas: o homem, a terra e o mito.
São temáticas que de uma forma ou outra se misturam pela seleção poética a que foram submetidas. A seleção e a disposição das fotos, aliás, não levou em consideração a geografia, conforme ressalta Azevedo. ''A identificação visual é mais importante'', salienta o fotógrafo, que também responde pela curadoria da exposição. Por isso, os olhos que percorrem a exposição não devem esperar um roteiro turístico.
Na mostra, imagens de Guaraqueçaba estão dispostas ao lado de imagens de Lençóis. Retratos de formas escultóricas que se revelam seres animados frente à lente do fotógrafo foram captadas em regiões opostas, mas juntas dão a impressão de serem únicas. Dentre os critérios de seleção, foram levados em conta a luminosidade e a composição. ''Montei a exposição como quem compõe uma música, estabelecendo um ritmo próprio'', revela Azevedo.
O ritmo é traduzido não só pelo olhar peculiar a que a realidade é submetida, como pelas texturas e luzes escolhidas milimetricamente pelo fotógrafo. ''Eu sempre fui fascinado por imagens, desde os quatro anos'', lembra. O resultado é uma opção quase nunca tradicional, que vale tanto pela leitura poética quanto pela realidade revisitada por olhos (bem) atentos.
A mostra ''Coração do Brasil'' permanece em cartaz na Casa Andrade Muricy durante dois meses e, a partir do próximo ano, será exposta em mais nove capitais brasileiras, seguindo depois para Portugal, Espanha, França e Japão.
Serviço
''Coração do Brasil''. Exposição fotográfica de Orlando Azevedo. Abertura hoje, às 20 horas na Casa Andrade Muricy (Alameda Dr. Muricy, 915), em Curitiba. Em cartaz até 15 de dezembro.

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