Um olhar profundo sobre Moçambique
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
Adelar Motter é um agrônomo habituado a coletar informações e analisá-las. Assim, era normal que ele registrasse em diário e fotos suas experiências vividas em Moçambique, país onde passou oito meses entre 2004 e 2006 Motter trabalhou na implementação de um município em conjunto com a comunidade da Vila da Manheça.
A ciência o motivou a converter seus relatos em textos técnicos, pontuados por algumas curiosidades no final. Mas quem tinha acesso a esses textos demonstrava mais interesse exatamente por esses rodapés. Então veio a ideia: melhor mesmo seria transformar as curiosidades em um livro.
O resultado pode ser conferido hoje, no lançamento dos livros Africanto - crônicas moçambicanas e Moçamba - cores e gentes de África. Este último, de fotografias, inclui citações de autores africanos, como Mia Couto. Fiz mais ou menos três mil fotos para usar 150 no livro. E com uma Sony de bolso. Não sou fotógrafo, mas gosto de lidar com luz e enquadramento, explica. Parte dessas fotos também pode ser conferida na mostra Cores e Gentes de África, no corredor da expansão do Catuaí Shopping.
Africanto é dividido em três partes, e aborda o dia a dia dos moradores e suas peculiaridades, trazendo situações e realidades bastante diferentes das nossas. Há coisas que as pessoas podem achar deveras agressivas ou muito diferentes. A difícil condição da mulher é o que mais chama a atenção. Mas é preciso buscar o contexto histórico daquilo para não cair na armadilha de achar que a gente está certo e eles, errados, aponta.
Nas crônicas, Motter aborda temas como o trabalho, as relações familiares, casamentos e funerais, situações que pôde acompanhar de perto. Tentei não ser piegas. Mas é uma cultura apaixonante, então acho que em alguns momentos escorrego para a pieguice, reconhece o autor. Os textos estão escritos em um português mais moçambicano que brasileiro, o que demandou um glossário ao final.
O curioso é que, embora tenha feito mestrado na Espanha e conheça outros países, Motter foi se apaixonar justamente pelo lugar onde vivenciou um certo preconceito. Eu era integrante do 1% de brancos do país, e senti o que era estar na condição de minoria. Não que tenha sido agredido, mas me chamaram de molungo, por exemplo, que é uma forma meio pejorativa de se referir a um branco, revela.
Mas o agrônomo também pôde testemunhhar a afeição que aquele povo tem pelo Brasil. Eles adoram a nossa música, nossas novelas, nossos escritores. Tem emissora de rádio só de música brasileira. Tem uma que só toca Roberto Carlos, conta, acrescentando que o Brasil só teria a ganhar se fizesse mais por países como Moçambique. Nosso país poderia fazer a diferença lá por meio de iniciativas simples, como o Projeto Rondon (que leva estudantes universitários para atuar em comunidades carentes), sugere. O Brasil é referência para eles, a luz no horizonte, a prova de que eles também podem dar certo, ressalta Motter, que trabalha no Iapar e foi parar em Moçambique através de um programa do governo espanhol.
Os livros estão sendo lançados com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), o que garante a sua distribuição em bibliotecas do município, e também estarão à venda nas livrarias Porto. Motter também tem participado de debates abordando o tema. Vale lembrar que a cultura africana é disciplina obrigatória nas escolas.


