Um Olhar de Invenção
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
O diretor Andrea Tonacci - que está hoje em Londrina a convite da 'Pós-Graduação em Cinema e Documentário' da Faculdade Pitágoras - construiu toda sua carreira, literalmente, com uma câmera na mão e idéias na cabeça. Aclamado pelo seu olhar radical, frenético e experimental em filmes como 'Blá, blá, blá' (1968) e 'Bang Bang' (1970), o diretor é um representante importante do movimento chamado de 'Cinema Marginal', surgido na década de 70 como uma manifestação da contracultura nacional. Sem perder sua identidade, o último trabalho de Tonacci, filmado em 35mm, foi o documentário ''Serras da Desordem'' (2006), que renderam para ele o Kikito de 'Melhor Diretor' no Festival de Gramado.
Como uma das grandes referências do cinema alternativo, o cineasta participou ativamente na consolidação da identidade 'marginal' ao lado de nomes como Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e João Silvério Trevisan. Em entrevista exclusiva para a FOLHA, o diretor Andrea Tonacci fala sobre o aprendizado de fazer cinema, seu processo criativo e o surgimento de novos 'marginais', agora espalhados pela internet.
Qual é a maneira ideal de se aprender a fazer cinema?
Andrea Tonacci - Quanto ao aprender, só tentando, só fazendo. Para mim pensar cinematograficamente tem a ver com o aprendizado dos sentidos, a um estado de atenção mais consciente. O resto é braçal, suor e lágrimas, mecânico, digital, etc... Hoje, com 67 anos de idade, entendo a continuação do meu aprendizado cinematográfico como um procedimento de desapego a conceitos e imagens pré-existentes, persistentes, reincidentes. É como ter aprendido que é preciso fechar os olhos para ver o fluxo do próprio imaginário.
Qual a sua impressão sobre o crescimento do mercado do cinema brasileiro - da abertura de cursos e interesse de novos estudantes sobre o assunto - nos últimos anos?
A.T. Só se for pelo crescimento da linguagem de TV nas salas de cinema, aliás, salas de shopping - lojas. Nelas, o consumido é o espectador. Cabide temporário do que lhe derem para ver e vestir. O Brasil é essencialmente mercado e serviços, é o 'projeto Brasil'. E mercado só cresce, senão não é mercado. Nisso, constato que a grande maioria dos cursos são para criar deslumbrados funcionais, futuros frustrados passionais, para operação da parafernália tecnológica mutante. Enquanto o aprendizado do pensar, olhar, ver, ouvir, sentir, imaginar, nada disso é essencial. Só conheço um único curso que inclui, por exemplo, filosofia na área do audiovisual.
Em sua opinião, ainda existe público para o cinema 'marginalizado', com uma proposta diferenciada?
A.T. Basta entrar na web para você ver a quantidade infinita de filmes marginalizados e de ''marginais'' copiando, baixando... é a partir de agora que esse cinema livre vai aparecer como potência global de enfrentamento à indústria bélica do audiovisual indiferenciado. E sua exibição é independente de qualquer controle.
Em entrevista para a revista 'Contracampo', o senhor diz esperar que a garotada tenha raiva do que está acontecendo no mundo. Sobra conformismo para a juventude de hoje?
A.T. Não creio, é o terrorismo de estado que cresceu. Sua violência física, ética e moral redimensionou a condição do sentimento de liberdade e revolta. Hoje briga-se pela visibilidade, uma briga de foice! Vale tudo para se dar bem, e dane-se o mundo. A autoimagem pública foi incorporada à identidade pessoal. Os filmes expressam a mutante condição humana diante do mundo que o próprio homem constrói. Mas aí estão revoltas populares e homens bomba para provar que a insatisfação humana está no auge. Veja o inconformismo que rola da web e explode socialmente, os filmes ''clandestinos'' são exibidos de mão em mão, as pessoas têm fome absoluta do diferenciado.
Como funciona o seu processo criativo?
A.T. Ficar quieto, acalmar, deixar esvaziar tudo, voltar ao momento presente dos sentidos e aguardar atento a formação de uma nova onda, ir ao seu encontro, entender sua força, velocidade, deixar-me levar e surfá-la, mas pode ser que não seja a boa, então nado de volta... mas é sempre o mesmo mar... que são meus sentimentos, questionamentos, emoções... recentemente compreendi que Pereio no 'Bang' é o mesmo personagem do Carapirú no 'Serras'. O mesmo homem diante do mesmo mundo, o mesmo homem em dois momentos de sua vida. Depois é muita pesquisa, trabalho braçal, permeação na realidade cotidiana e questionamento constante.
Serviço
Seminários com Andrea Tonacci
Quando - Hoje
Onde - 8h30 no auditório da Pitágoras (Rua Edwy Taques de Araújo, 1100) acontece a exibição do filme ''Bang Bang'' e conversa com o cineasta. Às 14h no Cine Com-tour (Av. Tiradentes, 1241) será realizada a exibição do documentário ''Serras da Desordem'', seguida de um bate-papo.
Quanto - Gratuito


